O rio

Manuel Bandeira, Estrela da vida inteira.

Ser como o rio que deflui
silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las.

E se os céus se pejam de nuvens,
como o rio as nuvens são água,
refleti-las também sem mágoa,
nas profundidades tranqüilas.

Leitura e comentário: 1m40s
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Estrela da vida inteira

Este é um dos poemas de Bandeira que mais se encontra pela web, certamente por ter um certo tom de “palavras de sabedoria” bastante ao gosto popular. Aliás, o mesmo gosto que atribui os textos mais bregas a William Shakespeare, Machado de Assis e Fernando Pessoa. É interessante, de um ponto de vista antropológico, considerar que muitas pessoas acham que estes três são “grandes escritores” por terem supostamente revelado à humanidade que as melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos. Talvez os gerentes do mundo pensem que, se Shakespeare estivesse vivo, estaria ensinando os atores de sua companhia a otimizar processos, agregar valor e, conhecimento iniciático de grau 33, usar filtro solar. Não sem deixar de lembrar que sua força interior ajudará a superar todos os problemas e que, mesmo que alguém tenha mexido no seu queijo, amanhã será um novo dia, em que o sol voltará a brilhar.

Mas o fato de o poema aparecer em sites que têm scripts estrelinhas brilhantes não nos deve impedir de apreciá-lo. Primeiro, ele não traz “palavras de sabedoria” no sentido do parágrafo anterior. Seu tema é o velho anseio das almas que muito refletiram (e se cansaram, como é natural) por simplesmente ser, por tornar-se, na expressão de Bruno Tolentino, uma “coisa que não pensa”, como o rio que simplesmente corre. Este desejo não é um objetivo, mas antes uma nostalgia da inconsciência, da espontaneidade, pois é muito fácil dizer que “a vida não-examinada não vale a pena ser vivida” mas é muito difícil ficar examinando sem parar. Vida e reflexão parecem opostas; eu ia escrever que parecem atividades opostas, mas a reflexão parece o contrário da atividade. Ao refletir somos obrigados a sentir a provisoriedade e da incompletude. Até a minha mesa parece mais completa e duradoura. É a sensação de Fernando Pessoa, em “Tabacaria”, dizendo à menina que havia mais metafísica nos chocolates dela do que em ficar pensando em metafísica.

Mas se este tema é recorrente, e se Fernando Pessoa já tocou neste seu assunto de estimação inúmeras vezes, de várias maneiras, o que este poema de Bandeira tem de especial? O casamento entre o som e a imagem do rio que corre.

O poema se baseia nos dois primeiros versos. Os demais apenas analisam a imagem ali proposta. No primeiro, “Ser como o rio que deflui”, temos três vogais médias (ê, ô, ê) em posições tonicamente importantes. “Ser como o” é um pé trissílabo com duas delas. Eu sei que “ser” é um monossílabo tônico. Mas aqui é pronunciado como uma sílaba forte pretônica do grupo inteiro (ver os “grupos de força” de Mattoso Câmara Jr., uma de minhas teorias prosódicas favoritas), abrindo alas para a segunda vogal média. As duas se reforçam mutuamente. Algo semelhante vale para o pé trissílabo final, “que deflui”: o “de” antes da sílaba tônica final tem intensidade considerável, maior que o “que” (pronunciado no Rio como “qui”), anterior. O ditongo final, antecedido pela consoante líquida, arremata a fluidez, a impressão do rio corrente. Mas esta impressão também foi sutilmente marcada pela aliteração do “r” final de “ser” com o “r” inicial de “rio”, para os cariocas. As vogais médias ecoam-se e ligam as pontas, e os “i”, altos, também. Ainda é preciso considerar, para entender bem o verso, a ausência de vírgula. Freqüentemente é preciso olhar para algo que não está presente para entender o que está presente… Aqui, Bandeira não disse “Ser como o rio, que deflui”, pois tudo seria diferente. A impressão da fluidez do rio desapareceria. A vírgula transforma a oração adjetiva de restritiva em explicativa: ser como um rio aí, que deflui etc. Mesmo com o artigo definido o efeito é de indefinição; não se apeguem demais à nomenclatura gramatical, por favor. Com a vírgula, enumera-se uma propriedade do rio. Sem a vírgula, enfatiza-se uma propriedade daquele rio em particular, que “deflui / silencioso dentro da noite”.

No segundo verso podemos fazer uma análise semelhante das vogais: alternância de médias (ê, ô) com a alta “i” (a vogal ao fim de “dentro” é baixa, mas mais complexa) e ditongo na última sílaba tônica. Mas precisamos observar que “silencioso”, logo após um verbo, parece um advérbio. Admitimos que alguns adjetivos que tenham forma adverbial sejam usados como advérbios na forma de adjetivos, como rápido e rapidamente. Se digo “ele corre rápido”, ninguém dirá que “rápido” é adjetivo. Esperaríamos que o rio corresse “silenciosamente” porque não costumamos usar “silencioso” como um advérbio, mas a pausa do fim do verso anterior, que coincidiu com um verbo intransitivo, nos deu a sensação de que algo tinha terminado e com isso surgiu a famosa licença poética, em nome da qual se comete tanta vigarice, para transformar o adjetivo em advérbio, remetendo-nos mais ao rio que ao defluir.

O resto do poema repete a estrutura destes dois versos e a expande; o leitor pode fazer por si sua análise. As rimas dos versos 4 e 8 relembram as vogais altas posicionadas ao início e ao fim daqueles primeiros, por exemplo. E, em termos de imagens, Bandeira está apenas mostrando o que significa “ser como o rio que deflui / silencioso dentro da noite”: refletir as mágoas que são água como o rio e as nuvens.

Há só um detalhe de simbolismo natural que este velho estudante de astrologia não poderia deixar passar, e que pode escapar a quem não tenha lido nada a respeito. As mágoas de que Bandeira fala são simbolizadas pela água salgada – as emoções. O rio, que é de água doce, a única que se pode beber, é o símbolo natural da razão, que é o que distingue o homem enquanto homem. As nuvens, que estão no céu, podem ser fruto da condensação da água salgada, mas o sal não se condensa, e a água da chuva é doce. Mas podemos admitir que as nuvens, com sua possível agitação antes de virar chuva, sejam um estado intermediário entre a água potável da razão e a água salgada das emoções. Daí que seja bonito que Bandeira fale em refletir as nuvens, identificando-se com elas, emoções em transformação, mas não completamente – é preciso depurá-las.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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