Cães a ladrar, que o caçador atiça

Dante Alighieri / Tradução de Jorge Wanderley

Sonar bracchetti, e cacciatori aizzare…

Cães a ladrar, que o caçador atiça,
lebres largando, todo mundo aos gritos,
e o galgo que à coleira vai restrito
e escapa e por declives se encarniça,

são alegria, creio, que enfeitiça
o coração que é livre e sem conflito!
Mas eu, pensando amores, vou conscrito
de um amor recusado na injustiça

e ouvindo o que ele diz só para mim:
“Um coração gentil não se aventura
em caça e jogos selvagens assim,

faltando a damas de tal formosura!”
Temendo então que Amor saiba meu fim,
sinto vergonha, caio na amargura.

Leitura e comentário: 3m15s
[audio:caesaladrar.mp3]

Lrica

Talvez este seja meu poema favorito da edição bilíngüe da Lírica de Dante feita por Jorge Wanderley para a Topbooks. Ao menos é o que primeiro me chamou a atenção, o que me fez ter vontade de saber italiano, isto nos idos de 1996 ou 1997. “Sonar bracchetti, e cacciatori aizzare…” Ainda hoje repito versos em línguas que não entendo muito bem (como sobretudo o alemão) apenas por apreciar sua sonoridade. E uma das virtudes da tradução de Jorge Wanderley para este poema foi ter conseguido manter os dois momentos musicais do poema, fundamentais para que ele faça sentido.

Os seis primeiros versos vão num crescendo até explodir na exclamação. Nos quatro primeiros, vai aumentando a agilidade: é insinuada no latir dos cães atiçados, apontada nas lebres que largam, e plenamente manifestada na imagem do galgo (um cão comprido) desembestado. Do primeiro para o segundo quarteto há uma suspensão natural; no início deste, vem a explicação para tanta agilidade, transferindo a força da imagem para um outro plano. O “coração que é livre e sem conflito” já transmite a idéia da pura felicidade, e acho que ninguém se espantaria se Dante pulasse da página, Florença se materializasse subitamente e Beatrice Portinari começasse a cantar “I’ve got rhythm, I’ve got music…”

Então vem o segundo momento do poema, começando justamente com um “mas”, cortando todo o clima. O que contrasta com o clima do alegre coração é, surpreendentemente, os pensamentos amorosos. Aliás, costumo abominar o uso transitivo direto do verbo “pensar”, que me parece um vício acadêmico – exatamente como “(re)ver”, por exemplo. Aqui, no entanto, a abolição da preposição, além de resolver uma questão métrica, ajuda até a clarear o sentido: se Jorge Wanderley tivesse optado por “pensando em amores”, talvez o leitor pensasse que seu Dante está partindo corações pela cidade de Florença. Nada mais distante: na verdade, todo este espalhafato não convém a um amador (evito a palavra “amante” propositalmente por causa de sua ambigüidade), como lembra o amor recusado. E no fim aparece o Amor com maiúscula, ou seja, Cupido, que na Idade Média ganhou esta nova versão. Se pensarmos nas tolices e loucuras (e estupros) a que Eros ou Cupido levaram os pagãos de antigamente, este Amor que não permite nem mesmo uma certa alegria espalhafatosa parece bizarramente ascético. Não necessariamente por causa do Cristianismo, neste caso. Há muita suspeita de que Dante tenha herdado idéias dos cátaros, que desprezavam a carne em favor do espírito e, à maneira hindu, da libertação deste mundo sublunar de geração e corrupção.

No fim, como talvez seja tão possível mostrar que Dante é um cátaro herege quanto um cristão exemplar, não vale muita a pena especular a respeito disto. Mas é possível admirar a coerência entre dois momentos do poema, com coincidência perfeita entre idéias e ritmo, e ainda se defrontar com a questão: é possível transformar a visão de Eros proposta por Dante numa disciplina espiritual?

Autor: Pedro Sette-Câmara

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