A uma feíssima

Pero de Andrade Caminha (152?-1589)

Feia se falas és, feia calada,
ouvindo feia, feia respondendo,
feia branda pareces, feia irada,
negando feia, feia prometendo,
feia toucada, feia destoucada,
com frio feia, feia em calma ardendo,
feia contente, feia descontente,
em tudo sempre feia a toda a gente.

branda = calma (adjetivo)
toucada / destoucada = com o cabelo arrumado / desarrumado
calma (substantivo) = calor

Leitura e comentário: 2m02s
[audio:feissima.mp3]


Antologia da poesia portuguesa

Depois de falar de poemas densos, é bom relaxar um pouco e trazer um poema levíssimo, engraçadíssimo e, dependendo da sua auto-estima, antipaticíssimo. Afinal, a feiúra é quase um tabu. Confesso que, ainda que admita que ela possa ser muito atenuada, sobretudo na juventude, não sei se chega a ter cura. Ela é, de certo modo, a prova do pecado original. Aliás, no caso da antimusa de Pero de Andrade Caminha, era até uma prova viva e abundante.

Mas Caminha não optou por estas considerações teológicas ao fazer seu poema, cuja graça se baseia em apenas dois elementos: a observação de que a feiúra resiste aos estados contrários e as rimas. Desde o modernismo brasileiro há quem tente criar o subgênero do “poema-piada”, cujo erro está justamente em querer definir-se antes mesmo de existir. A idéia de “poema-piada” não tem graça, é óbvio. E, raios, desde que há poesia há quem faça piada em versos; um dia rirão da infinita ingenuidade dos projetistas de poemas do século XX.

Meu exemplo aqui é do século XVI, mas há as cantigas de escárnio e mal-dizer, que são mais antigas… O poema de Caminha, portanto, já era “leve” ou “ligeiro” naturalmente, bem antes de haver um projeto de criar uma poesia anti-solene, baseada exclusivamente numa visão tosca, caipira e ignorante da história da poesia.

Até agora, a melhor definição de “poesia ligeira” foi dada por W. H. Auden na antologia de light verse (ou seja, “poesia ligeira”) que organizou para a editora da Universidade de Oxford, a qual, no entanto, não a apreciou muito.

W. H. Auden’s Book of Light Verse

Quando as coisas pelas quais o poeta se interessa, as coisas que vê à sua volta, são basicamente as mesmas que a sua platéia vê, e esta platéia é bastante geral, ele não terá consciência de si como alguém peculiar, e sua linguagem será direta e próxima da linguagem comum. Quando, por outro lado, seus interesses e percepções não são imediatamente assimiláveis pela sociedade, ou sua platéia é altamente especializada, talvez composta de outros poetas, ele terá uma aguda consciência de si como poeta, e seu método de expressão pode distar muito do uso social habitual da linguagem.

No primeiro caso, sua poesia será “ligeira” no sentido usado nesta antologia…

W. H. Auden’s Book of Light Verse, p. xxiii

O poema de Caminha trata de algo que todos podem ver: a feiúra de uma senhora. Enquanto a beleza pode até ser matéria de disputa, normalmente a feiúra é um ponto pacífico entre aqueles que a julgam. A linguagem que usa, o português culto do século XVI, era adequadíssima ao ambiente cortesão que freqüentava – o que mostra, aproveitando a definição de Auden, que pode até haver uma poesia ligeira um pouco mais restrita, ainda que não necessariamente “difícil”. Um poema pode se referir a um determinado meio – um círculo de amigos, de profissionais – e ser imediatamente entendido por eles. O poema “difícil”, digamos assim, será aquele que exige mais atenção, que não é assimilado de primeira, ainda que tenha algum impacto. Yeats, por exemplo, tem um universo de referências bastante particular: o pássaro de Bizâncio, o imperador, a torre etc. e inúmeros nomes de militantes políticos seus amigos. Depois que você pega as referências e se acostuma com elas, torna-se um leitor muito melhor de Yeats; mas, como nenhuma delas é obrigatória (é preciso admitir que os personagens das revoltas irlandesas não têm, fora da Irlanda, o mesmo peso que os personagens da antigüidade clássica), nem faz parte do senso comum, praticamente ninguém assimila os poemas de Yeats de uma só vez. Não é o caso aqui: feias há, todos as conhecem, e, ainda que seja preciso explicar três palavrinhas do vocabulário, já temos vontade de decorar o poema para recitá-lo para os amigos e dar uma boa risada.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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