Uma arte

Elizabeth Bishop. Tradução de Paulo Henriques Britto. O iceberg imaginário e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 309

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

Leitura e comentário: 4m41s
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O iceberg imaginário

One Art é um dos poemas mais conhecidos da língua inglesa, e uma busca no Google mostra que esta tradução de Paulo Henriques Britto já vem se tornando um dos poemas mais amados também da língua portuguesa. Os dois poemas, original e tradução, são perfeitas obras de gênio: o primeiro, por vivificar a tediosa forma fixa da vilanela, o segundo, por recuperar tão bem o texto original em português que parece uma tradução definitiva. Mesmo a observação de que a rima “ero / ério” não é perfeita parece um tanto filistina diante das outras conquistas, como o uso da expressão “não é nenhum mistério” para “not hard to master”.

O poema já tem praticamente uma interpretação oficial, talvez um tanto zen, que estabelece que Bishop fala de como perder é necessário e menos difícil do que parece. Daí se segue o de sempre: é preciso deixar as velhas formas para ganhar novas, é preciso abandonar o conhecido para aventurar-se pelo desconhecido. Afinal, o poema segue até o esquema de uma lição, começando com uma afirmação geral e seguindo com exemplos cada vez mais sérios — a chave, a hora, a viagem, o relógio da mamãe, as casas, as cidades, o continente, a pessoa amada (ou amiga), como numa escala iniciática. Ao final, a afirmação de algo que estava implícito na existência mesma do poema: perder pode parecer algo “muito sério”, pois, se não parecesse, não seria preciso explicar o contrário. Já dizia Aristóteles que a finalidade da retórica era defender a verdade…

No entanto, Bishop é uma verdadeira mestra, e não explicitaria algo tão óbvio se não quisesse dizer outra coisa. Em vez de ser lido como grande apologia zen da arte de se tornar mais leve, talvez o poema mereça ser lido como uma grande ironia: aprender a perder as coisas não é fácil coisa nenhuma.

Do ponto de vista de alguém inseguro — e uma certa insegurança parece tão normal que chega até a ser recomendável — todas as coisas aparentemente “contêm em si o acidente de perdê-las” ou, no original um pouco mais enfático, estão repletas da intenção de ser perdidas. Já olhamos as coisas sabendo que elas se vão, e que não há muito que se possa fazer. Perdemos a chave, e mais ainda perdemos “a hora gasta bestamente”, como em todas as vezes que decidimos fazer algo e nos dispersamos. Não é fácil aceitar esta perda. Prometemos que na hora seguinte será diferente — e quase nunca é. “A arte de perder não é nenhum mistério”: o fato da perda vem inapelavelmente. Vá-se resignando. Depois perca mais, a memória, o que é importante para as pessoas que você ama. Perca ainda aquilo que você considera mais estável — sua casa, sua cidade, o continente inteiro. Pense até — Bishop não deve ter pensado na hora de escrever este poema, isto é por minha conta — em como Ulisses pensou ter perdido tudo isto. Não foi nada fácil. Ele continuou tentando voltar para Ítaca. Mas não perdeu Penélope. Talvez não tivesse sobrevivido bem a tantas perdas, se elas tivessem mesmo acontecido (o adiamento extremo parece uma perda). Bishop admite: perdemos até o que não imaginávamos jamais perder, e no entanto somos capazes de lidar até com isto. Não por sermos nobres e grandes. Mas porque não há nada a fazer. Não há mistério: as coisas se vão, você irá perdê-las, é simples assim. Até mesmo, como na última estrofe, seu amor, ou seu amigo (há uma ambigüidade) será perdido. Na hora isto vai parecer “muito sério” — e, francamente, será mesmo. Se não fosse, não seria preciso escrever um poema de consolação.

Se não fosse, aliás, o próprio Jesus Cristo não teria insistido no assunto, recomendando que se perdesse a vida (ou a alma) para então ganhá-la. Elizabeth Bishop não está falando em perder algo para ganhar outra coisa melhor ainda; não está falando de um troca, mas só da perda. Não parece que ela tenha tido a expectativa de ganhar nada, exceto, talvez, a capacidade de escrever um pouco melhor; e, mesmo assim, talvez trocasse de bom grado essa capacidade por todas as coisas que perdeu.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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