Sobre a volta da missa “tridentina”

Criei um fórum para congregar os fiéis que desejam solicitar missas no rito tridentino. Você pode acessá-lo em www.salterrae.org/forum, mas precisa registrar-se para postar.

É importante advertir que não se trata de um fórum de discussão doutrinal; mensagens sobre a missa nova, o Vaticano II etc. serão apagadas.

Como nenhuma matéria em nenhum veículo brasileiro — ao menos dentre os que li — deu uma explicação razoável sobre a “volta” da “missa tridentina”, aí vou eu.

O adjetivo “tridentina” vem do Concílio de Trento. O Papa São Pio V, considerando que havia muitas inovações litúrgicas, decidiu restaurar — não “criar” — o rito romano. Sua instituição jurídica como rito oficial da Igreja Romana foi feita através da bula Quo Primum Tempore, que permitia às comunidades que celebravam a missa com algum outro rito continuamente há mais de 200 anos que permanecessem com ele. Durante os séculos, esta missa sofreu revisões pontuais; houve, por exemplo, o acréscimo das preces a São Miguel Arcanjo ao fim da missa por Leão XIII, e a retirada em 1962 por João XXIII do adjetivo latino “perfidis” na oração pela conversão dos judeus feita na Sexta-Feira Santa — o missal que tenho em mãos, de 1963, já o omite. Não custa observar que a primeira acepção do Oxford Latin-English Dictionary para “perfidus” é “faithless”, “sem fé” (em Jesus Cristo, naturalmente).

Se admitirmos que o rito tridentino é restaurado, então realmente ele foi desde sempre o rito da Igreja Romana. Não é à toa, ou por ser “um homem do seu tempo”, que o Papa São Pio V prometeu a excomunhão pelos apóstolos Pedro e Paulo a quem tentasse proibi-lo. No entanto, no início do ano litúrgico de 1970, isto é, no fim do ano civil de 1969, o Papa Paulo VI introduziu um novo rito romano, que progressivamente tornou-se o rito comum da Igreja Católica, marginalizando o rito tridentino. Porém, a Santa Sé jamais produziu qualquer documento que proibisse a celebração do rito antigo, como aliás foi explicitado agora pelo Papa Bento XVI. O Papa João Paulo II, por sua vez, estabeleceu que cabia aos bispos permitir ou não em suas dioceses a celebração do rito tridentino. Aqui no Brasil, por exemplo, a cidade de Campos tem missas tridentinas regulares, São Paulo tem três missas tridentinas por domingo (se não me engano), e Niterói tem uma missa tridentina às 16h, todos os domingos, numa capela lateral da Igreja de São Judas Tadeu, em Icaraí.

O que o Papa Bento XVI fez foi conceder a todos os padres aptos a licença para celebrar o rito tridentino, sem que precisem pedir permissão ao bispo. Podem celebrá-lo em privado o quanto quiserem, e podem celebrá-lo em público se os fiéis pedirem. Só não podem celebrar o rito tridentino durante o tríduo pascal (Sexta-Feira Santa, Sábado de Aleluia e Domingo de Páscoa), mas é preciso admitir que o rito “novo” para estes dias é quase idêntico ao tridentino.

A diferença entre o rito tridentino e o novo não é o latim. Nada impede que a missa nova seja dita em latim, nem que o rito antigo seja dito em vernáculo — exceto o fato de não haver, até onde sei, traduções autorizadas pela Santa Sé. A diferença entre os dois ritos é vária: está no texto, no número de genuflexões, na posição do altar e do sacerdote… Estas posições, aliás, são as diferenças mais óbvias, junto com o uso do latim: na missa nova, o sacerdote fica de frente para o povo, e o altar fica entre eles; na tridentina, o sacerdote fica de costas para o povo, e todos de frente para o altar. Quando chegamos ao texto, as diferenças começam a se multiplicar. O rito tridentino segue o mesmo calendário, e a maior parte dos dias litúrgicos se repete todos os anos. Já o rito novo tem três anos litúrgicos diferentes, com leituras diferentes. Daí vem a questão do missal romano, em latim, emitido pela Santa Sé, e as traduções feitas pelas conferências episcopais nacionais. Recentemente o Cardeal François Arinze tratou de alguns problemas na tradução americana, idênticos aos da tradução brasileira: os fiéis nos EUA pararam de responder “ele está no meio de nós” a “o Senhor esteja convosco” para voltar a dizer (isto já estava no rito tridentino) “e com o teu espírito”. Mais importante, na hora da consagração do vinho, o sacerdote parou de dizer “Este é o meu sangue, que será derramado por vós e por todos” para seguir o texto latino original, que diz “pro multis”, isto é, “por muitos”. Um nível abaixo hierarquicamente está a introdução de diversos textos locais, como cânons (“orações eucarísticas”) e prefácios diferentes e, por fim, de diversas inovações litúrgicas, muitas das quais, segundo o próprio Papa Bento XVI na carta aos bispos que fez acompanhar o motu proprio com a permissão para o uso do rito tridentino, são “difíceis de agüentar”. E, cá entre nós, são mesmo.

É claro que é uma grande alegria, ainda não suficientemente festejada, saber que podemos voltar a ter a missa tridentina em muitas igrejas, se não em todas. Acredito que a atitude do Papa Bento XVI era previsível, considerando suas declarações públicas a respeito do rito tridentino, notadamente o trecho que já mencionei de O sal da terra. Não cabe a mim julgar o Papa, mas entendo que ele tenha se deparado com a questão de como devolver ao rito tridentino seu lugar na vida da Igreja Católica sem causar abalos — até porque, segundo um rumor, ele teria dito ao escolher o nome de Bento XVI que gostaria que seu pontificado fosse “um tempo de paz e reconciliação”. Muitos de nós desejamos estar inequivocamente com Roma e por isso mesmo não apreciamos missas com violões, palmas, danças etc. em que um certo sentimentalismo toma — usurpa — o lugar da reverência.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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