O tempo passado

de Maria da Saüdade Cortezão

Houve um tempo
em que a mão erguia uma lanterna
e a noite se afastava um pouco, devagar.
Não se anulava.
A noite e o dia
abriam sulcos para o silêncio como um rio
e ao nosso lado caminhava sempre um espaço aberto.
Eu não recordo,
mas dizem-me que partíamos e tornávamos à casa
como o sangue parte e torna ao coração.
Mar não havia,
mas pisávamos violetas.
A cama em que dormíamos era a do parto e a da morte,
o pão era solene
e a aurora familiar.
Ah, dêem-nos, dêem-nos de novo
aqueles corpos ignorantes e densos,
e ouvidos para o silêncio
e boca para acreditar.

Leitura e comentário: 2m49s
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Não conheço nenhum outro poema de Maria da Saüdade Cortezão, a portuguesa que foi esposa de Murilo Mendes e que, como ele, a julgar por este exemplar, baseava sua poesia mais no conteúdo, no que é dito, que nos sons e ritmos. Ideal é atingir um equilíbrio, para que nem o conteúdo obscureça o som, nem o som obscureça o conteúdo; mas ideal é ideal e há muitos bons poemas que pendem mais para um lado ou para outro. Os melhores exemplos de poemas maravilhosos que dependem exclusivamente do ritmo são os do livro dos gatos de T. S. Eliot; eles grudam no ouvido, você os decora imediatamente, fica recitando para si, feliz da vida. E se você simplesmente fala do que o livro trata, parece não ter muita graça – ao menos não para mim, que não sou gatófilo.

Já este poema de Maria da Saüdade Cortezão transmite em sua descrição ainda algo de sua força, que depende das imagens. Formalmente, trata-se de um português elegante e claro, de verso “livre” bem cortado, um tanto pausado e grave. Faz mais sentido analisar o que é dito do que a construção do texto, que é simples e eficiente.

A primeira imagem, a da lanterna contra a noite, não tem grande mistério: mostra que havia respeito pelo desconhecido, mas não medo; ele se alumiava pouco a pouco, sem pretensões totalizantes: “a noite “não se anulava”. O conhecimento progride lentamente; a medida humana é preservada. Depois, na imagem mais bela do poema, vem a comparação entre o movimento de ir e vir com o movimento do sangue indo e vindo do coração. Uma imagem análoga, mas muito mais óbvia, compararia o movimento aparente do Sol em relação à Terra: ele é que volta para vivificá-la, e mesmo que você diga que materialmente a Terra é que gira em torno do Sol (o que pode ser verdade sob este aspecto, mas tem a desvantagem de contradizer a experiência), trata-se de um movimento exterior, de um processo exterior ao homem. O movimento do sangue é interior; o coração é a nossa fonte interna de vida, e é, aliás, simbolizado pelo Sol. Falamos em revolução solar, como falamos em revolução na estética e na política, e revolução é o retorno a um ponto original segundo um movimento cíclico; mas se o ponto original, seja o equinócio vernal ou o impulso da bomba cardíaca, não envia vida para os pontos mais afastados, não temos uma revolução em sentido pleno, mas só agitação e afetação. O que Maria da Saüdade Cortezão provavelmente quer dizer é que “houve um tempo” em que as revoluções eram retornos às coisas mesmas e não a ampliação histérica de frivolidades. Pouco depois, a imagem da cama como leito do parto e da morte, rememorando o tempo em que se nascia e morria em casa, e não no hospital, reafirma a gravidade do poema, que ainda será repisada em “o pão era solene”: não se faz revolução por frivolidade, a vida e morte acontecem dentro de casa, o alimento não vem do nada. Por isto o final do poema pede, certamente em tom de leve ironia, a volta dos “corpos ignorantes e densos”. Em vez de pedir mentes, ou almas, corpos: que o corpo é grave, é sério, é mortal; o excesso de mente produz a frivolidade e o horror. O adjetivo “ignorante” vem reforçar a condenação à soberba, e “denso” sugere que a experiência é tanto mais rica quanto mais sua gravidade for considerada. Este é um poema sério. Os “ouvidos para o silêncio” claramente propõem humildade, e a “boca para acreditar” também: falar não deve ser só fazer pose, mas pesar cada palavra.

Agora, há um mistério: o que ela quer dizer com “Mar não havia / mas pisávamos violetas?” Quando um português fala de mar, nunca fala por falar, ainda mais neste poema, que só faz convidar à meditação e à gravidade. O poema deve ser de antes da Revolução dos Cravos (1974), portanto não se trata de uma referência política, e provavelmente também não se trata de profetismo. Do que ela está falando, enfim?

Autor: Pedro Sette-Câmara

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