Histeria e paranóia redux

Comecei a responder a um comentário que *apoiava* o “see something, say something” que citei em um artigo recente como manifestação moderna do mesmo tipo de fenômeno que gerou o “Duck and Cover” e aos poucos fui percebendo que se não é óbvio por que eu acho que isso é péssimo, então talvez o assunto mereça mais elaboração.

O comentário coloca, entre outras coisas, que não haveria um clima de histeria generalizado. Bem, é claro que a histeria sempre pode piorar. Olho pela janela e não vejo pessoas correndo em círculos aos berros. Os Estados Unidos ainda são um dos países com maior liberdade individual no mundo. Mas estão sim se tornando também um dos mais histéricos. Basta ligar a televisão e se vêem coleções de pessoas dispostas a proclamar – e multidões dispostas a acreditar – que praticamente qualquer coisa desde batatas fritas até videogames são uma ameaça mortal e urgente que vai destruir o país se não for histericamente combatida.

Para mim já chegou, sim, em um clima de histeria. Abundam histórias de pessoas sendo presas / despedidas / processadas / incomodadas por causa dessa maluquice. Como os dois sujeitos (americanos) que estavam tirando fotos de trens, daí alguém os viu e ligou para o “Terrorism Hotline” e em 5 minutos eles estavam tendo que discutir com sujeitos de terno preto e óculos escuros, que se comportam acima da lei e podem prender qualquer um por qualquer motivo. Foram forçados a apagar todas as fotos que tinham tirado e sair do local sem qualquer motivo razoável, e só mesmo porque seguiram todas as instruções não tiveram suas câmeras confiscadas nem foram levados para interrogatório. Ou por exemplo a adolescente que foi *expulsa* da escola meses antes de se formar porque o segurança viu – oooohhh – uma faca de cozinha dentro de uma caixa de papelão no banco de trás de seu carro estacionado no pátio da escola. Detalhe – a garota estava de mudança e também havia panelas, pratos, copos, etc em seu carro. Ou o caso do adolescente que foi PRESO (sim, preso) porque escreveu uma redação em sua aula de “creative writing” na qual descrevia um homicídio. Isso depois de os alunos terem sido instruídos a “não prejulgarem e simplesmente serem criativos”. O aluno não tinha qualquer problema psicológico ou social e era um dos melhores da turma. Ou então que tal a história do cara que trabalhava em uma agêcia governamental e estava conversando com um colega sobre o fato de que queria comprar um rifle para praticar tiro ao alvo mas estava preocupado em escolher um que fosse o menos perigoso possível para pessoas. Algum histérico de plantão que estava passando ouviu algo sobre “atirar em pessoas” e histericamente “denunciou” o que ouvira. O sujeito foi sumariamente demitido de seu emprego sem direito a qualquer explicação. Afinal de contas, better safe than sorry, né? Na verdade, naturalmente, quem o despediu não estava nem aí para a segurança de ninguém; muito mais provavelmente apenas não queria se colocar na posição de não fazer nada e depois ser acusado de alguma coisa. Mas não acaba aí. O sujeito descreveu a situação em sua página na internet e fez a seguinte piada ao narrar o diálogo que teve ao ser despedido : “This doesn’t make any sense! Firing me for talking about buying a rifle? It’s not like I have any reason to go postal. Wait, maybe now I do. :-)” Uma piada, certo? Mas uma das características mais marcantes dos regimes totalitários (ou das estruturas proto-totalitárias) é não ter qualquer senso de humor. (Sinto comichões de citar aqui “A Brincadeira” de Milan Kundera.) A polícia foi bater na casa do sujeito e revistou tudo. Poderia citar mais exemplos atrás de exemplos. Reais, concretos, presentes. Já está acontecendo.

Claro, é tudo em nome da “segurança”, mas quando não é? As intenções são sempre as mais lindas. Esse clima de paranóia é profundamente perverso e mina as bases da convivência civilizada, mesmo sem o governo na equação. Claro, não que se deva ignorar o fato de que, historicamente e psicologicamente, histeria e totalitarismo andam de mãos dadas. Guerra ao terrorismo, guerra às drogas, guerra ao fumo, guerra ao álcool, guerra à pornografia, guerra à prostituição, guerra a isso, guerra a aquilo… sim, os Estados Unidos já se encontram confortavelmente instalados no terreno da histeria.

Para piorar, a histeria é similar de ambos os lados do espectro político. Enquanto um neocon talvez resolva fazer guerra à maconha, um ecoleft talvez decida fazer guerra ao cigarro. Acabam muito parecidos. Não lhes ocorre simplesmente deixar as pessoas escolherem e (exceto em casos realmente extremos) chegarem ao que é socialmente aceitável através da convivência e não da mediação (leia-se imposição) do governo. Aliás, é irônica a freqüência com que a posição libertária tende a ser classificada – na verdade acusada descreve melhor – como sendo de direita pelas esquerdas e como de esquerda pelas direitas. Ambos parecem achar que o governo seja composto de santos e anjos que vão descer sobre nós e nos salvar dos bichos-papões (qual é o plural de bicho-papão?) da condição humana – doença, ignorância, maldade, insegurança, injustiça, etc. Isso é uma ilusão, e uma ilusão perigosa. Não chego ao ponto de achar que seja possível passar sem governo, mas existem limites além dos quais eu começo a preferir que o governo me deixe em paz e eu lido diretamente com os bandidos – em todas as suas manifestações literais ou metafóricas.