Dez anos com Bruno Tolentino

Importante: no Rio, a missa de sétimo dia de Bruno Tolentino será na quarta-feira, 4 de julho, às 11h30 da manhã, no Mosteiro de São Bento.

Conheci Bruno Tolentino na Bienal do Livro do Rio de Janeiro em julho de 1997. Para quem chega agora, ou há pouco tempo, foi uma Bienal lendária: Olavo de Carvalho comandava o stand da Topbooks, Bruno Tolentino estava sempre lá, e havia eventos todos os dias, ainda que o único que realmente tenha trazido público tenha sido o debate com Ciro Gomes. Comprei ali meu exemplar de A balada do cárcere, que foi autografado. Mas só me aproximei mesmo de Bruno Tolentino meses depois. Queria levá-lo para dar uma palestra na PUC, onde eu estudava. Telefonei, conversamos muito — ele era a pessoa mais acessível do universo — e no dia 7 de outubro de 1997 fomos ver um recital de Lieder de Schubert, que são, aliás, o que mais gosto na música. Neste dia ele me deu um disquete que continha uma versão primitiva de O mundo como Idéia (o livro que saiu tem quase o dobro de poemas), a peça (sim, a peça) As horas de Katharina e alguns ensaios. Naqueles dias comecei a “morar” dentro de O mundo como Idéia, tanto que a minha coluna na edição de papel que deu origem a O Indivíduo se chamava O mundo como mundo. Encontrei Bruno novamente um dia antes da confusão da PUC, 18 de novembro de 1997, em Copacabana, bem perto da minha casa. Depois, ele me ligou, reclamou muito, e sempre insistiu para que eu concluísse alguma faculdade: em breve chego lá, meu amigo. Encontramo-nos novamente no dia 5 de fevereiro de 1998 (sim, tenho boa memória para datas), no lançamento da tradução de Rimbaud do Ivo Barroso — aliás, ótima. E começamos a nos ver com muita regularidade. 1998 e 1999 foram os grandes anos de convivência com Bruno Tolentino.

Demorei anos para realmente absorver suas lições. A primeira delas diz respeito a aceitar minha ligação profunda com aquilo que ele chamava de “raça”. Não se trata da raça branca ou negra ou amarela, mas de uma sensibilidade muito peculiar a uma determinada comunidade lingüística e geográfica. Talvez eu fosse disputar com ele a extensão dessa comunidade — realmente sinto os não-cariocas como estrangeiros que falam português, sobretudo os de São Paulo para baixo. Talvez ele concordasse, não tenho idéia. Mas a partir desta lição reformulei de modo muito pessoal a frase comumente atribuída a Fernando Pessoa: em vez de “pátria”, prefiro dizer que minha casa é minha língua, a língua portuguesa falada no Rio de Janeiro. Trabalhando como tradutor, vejo que por mais que se tenha contato com um idioma estrangeiro, por mais que ele se torne corriqueiro a ponto de certas palavras e expressões virem primeiro nele, ou a ponto até de se escrever (mesmo poemas) diretamente nele, a transparência da língua nativa nunca é sobrepujada. Falar, sem qualificativos, é falar português; falar inglês é falar inglês, não falar. Isto não tem nada a ver com nacionalismo — algo de que eu certamente não posso ser acusado — nem com o amor programado por uma idéia de Brasil, mas com a aceitação de um fato simples. Ser, para mim, é ser em português. Desta aceitação da língua como mãe é que nasce o amor pela comunidade falante e, automaticamente, a gratidão que gera uma dívida. Não direi que esta dívida é de todos; mas é uma dívida que aqueles que trabalhamos com a língua, a literatura e a cultura contraímos e nunca cessaremos de pagar.

A segunda lição, que pode até surpreender a muitos que o conheceram, é a lição da humildade. Bruno aparecia mais por suas polêmicas do que por seus elogios, mas mais de uma vez vi-o elogiando em privado muitos autores. Mesmo que lhes fizesse também críticas, o mais comum era vê-lo ler em busca do que era bom. Às vezes eu me impressionava e perguntava porque aquilo era bom, já que me parecia ruim, e nunca deixei de ouvir uma boa explicação. Nós que escrevemos corremos o risco de nos apegar demais às nossas próprias concepções estéticas, descartando aquilo que nasce de motivações muito diversas, fazendo críticas pseudo-objetivas que apenas travestem uma discordância em relação à proposta. Bruno Tolentino conseguia com facilidade perceber as propostas e conseguia ler os poemas de diferentes autores tendo-as em mente. Certa vez ouvi Olavo de Carvalho dizer: “Muitos escritores não gostam de outros escritores, preferem ficar sozinhos, não falar com ninguém. Mas o Bruno adora os escritores!” Verdade. Ele amava todos aqueles que partilhassem seu amor pela língua e pela “raça” naquele seu sentido tão peculiar, e odiava aqueles que quisessem vilipendiá-la, estes Simões Bacamartes que vinham e vêm com teorias importadas tratá-la como um bando de selvagens necessitados de salvação. Pode ser que suas brigas continuem a ser mais lembradas, mas foi ele quem fez o Sudeste ler Alberto da Cunha Melo, foi ele quem prefaciou o maravilhoso livro póstumo de Sergio Lemos, A luz no caleidoscópio, foi ele quem recebeu pacientemente inúmeros aspirantes a poeta — entre os quais eu mesmo — e lhes apontou os defeitos e qualidades com a maior delicadeza, quando poderia ter adotado a postura padrão e elogiado todos irrestritamente, distribuindo tapinhas nas costas ou, como ele gostava de dizer em 1998, “rodando bolsinha poética”.

Com sua humildade, Bruno Tolentino abriu-me os ouvidos. Parece vergonhoso hoje dizer que alguém foi um exemplo; pois eu digo que um dos elementos mais importantes da minha formação (inacabada, naturalmente) foi o esforço consciente que fiz para ter os ouvidos dele. Sempre soube que não poderia nem deveria tentar escrever seus poemas — já existia um Tolentino. Mas ouvir o que ele ouvia, gostar do que ele gostava, isto era a consummation devoutly to be wished, algo sumamente desejável, e foi difícil. Sempre quis ouvir suas explicações, como sempre quis ouvir explicações, mas na maior parte das vezes não tanto para entender um assunto em abstrato, mas para saber como é que ele chegou a pensar ou sentir aquilo, como se eu procurasse não exatamente as doutrinas ou os milagres, mas os testemunhos. Entre estes não há apenas discursos diretos, narrativas de experiências, mas toda uma atitude que se quer apreender. Não se tratava só de ouvir aquilo que Bruno Tolentino ouvia naqueles poemas para que os achasse bons, mas de aprender a ouvir como ele ouvia, para poder usar seus ouvidos na sua ausência e conseguir imaginar: “O Bruno diria que…” Não que eu pense que seja possível com isso apreendê-lo completamente, criar um verdadeiro Bruno Tolentino interior que se possa ligar e desligar. Mas não conheço outra maneira de desenvolver a própria sensibilidade que não passe pelo empréstimo de sensibilidades alheias. Se alguém de quem você gosta pede que você experimente uma comida, você experimenta. Se alguém que você admira admira alguma obra, você quer aprender a admirá-la. A fé e o amor são o suporte psicológico do conhecimento entendido como um ato do sujeito, o ato de conhecer, não o empilhamento de palavras em linguagem padronizada.

A contribuição de Bruno Tolentino para a nossa poesia ainda vai demorar para ser adequadamente avaliada. Desde que comecei a conviver com sua obra, já tive muitas opiniões diferentes. Há coisa de um ano sinto-me propenso a concordar com o próprio Bruno, que dizia: “Sou o Fernando Pessoa daqui.” Isto, é claro, se refere à sua estatura, e não à natureza de sua contribuição, bem diversa. A mim parece que a grandeza de Fernando Pessoa esmaga, enquanto a de Bruno Tolentino estimula.

Acredito que a poesia brasileira, um pouco mais do que a portuguesa, passou por um certo abaixamento de voz. Tomemos nossos grandes poetas: Drummond escrevia em tom de conversa, médio, “normal”; João Cabral, idem. Manuel Bandeira e Cecília Meirelles (não conheço sua obra muito bem, no entanto: falo do pouco que li) praticamente sussurram. Os temas também foram diminuindo, voltando-se cada vez mais para o cotidiano, e a poesia foi ficando cada vez mais privada, íntima, interior. É natural que exista uma rejeição estética da vida pública brasileira; mas, assim como Platão falou que o preço que os bons pagam por não se interessar por política é ser governado por homens maus, o preço que os bons escritores pagam por desprezar o espaço público é viver em retiro ou suportar o nojo do registro comum. Bruno Tolentino não aceitou nada disto, e se seu livro dos anos 60, Anulação & outros reparos, já partia de um tom um pouco mais alto, o mesmo que Octavio Mora usou no ciclo de Ifigênia de Ausência viva, de 1956, seus livros brasileiros posteriores, publicados a partir de 1994, não teriam pudores em cantar em voz altíssima, usar exclamações e levar a poesia para a praça, com destaque, neste quesito, para Os deuses de hoje. Em vez de torcer o nariz para a grande humanidade que ademais não tem o hábito de ler poesia, e aceitar automaticamente que o hermetismo é uma espécie de moira, Bruno procurava não se distanciar da linguagem comum, como sempre declarava em entrevistas. Enquanto a poesia se fechava em si mesma, a publicação de sua obra teve um impacto semelhante ao das Lyrical Ballads de Wordsworth e Coleridge, em cujo prefácio (na segunda edição) Wordsworth declarava que pretendia usar na poesia a linguagem direta das classes médias. Assim como nem sempre Wordsworth conseguiu seguir seu programa, Bruno também foi eventualmente rebuscado, o que não o diminui em nada.

Seria também difícil encontrar outra obra, talvez até no todo da literatura escrita no Brasil, que se compare à de Bruno Tolentino em ambição, realização desta ambição e monumentalidade. A Invenção de Orfeu de Jorge de Lima é ambiciosa, mas quase sempre ininteligível (como aliás admite Manuel Bandeira em sua Apresentação da poesia brasileira). O mesmo Jorge de Lima e Murilo Mendes poderiam pretender “restaurar a poesia em Cristo”, mas sua intenção é mais lembrada que seus poemas. Além disso, livros de poesia costumam ser pequenos, mesmo os mais ambiciosos esteticamente: ainda que a média fique entre 30 a 50 poemas por livro, não custa lembrar que T. S. Eliot mudou a história da poesia no ocidente com um livrinho de apenas 12 poemas chamado Prufrock and Other Observations. O livro mais curto de Bruno é justamente o livro inglês, About the Hunt, com 17 poemas (todos estão em O mundo como Idéia). Mas, entre os brasileiros, o mais curto, A balada do cárcere, já ultrapassa muito a média, e os demais não ficam tão distantes dos 538 sonetos de A imitação do amanhecer. Os livros são extensos por duas razões: primeiro, a facilidade extraordinária que Bruno tinha para escrever; segundo, seu desejo de ser fiel e portanto minucioso ao “mundo como tal”, o que o levava, como lhe disse uma vez em 2003 ou 2002, a fazer uma espécie de fenomenologia poética, olhando um mesmo assunto de várias e várias maneiras. Até brinquei dizendo: “Bruno, O mundo como Idéia é muito obsessivo… A gente começa a ler e não agüenta mais!” Ele riu. Na verdade, a extensão do livro e os próprios poemas fazem ver certas tensões. Se dou a definição de algo — “o homem é o animal racional”, por exemplo — não faço jus a nenhum homem individual, exceto no nível de gênero e espécie. Mas os entes existem individualmente, e falar daquele ente é falar de suas particularidades, que são tão indefinidas quanto seu próprio ato de ser. Por isso o discurso pode ser, digamos, formalizante, referir-se a níveis mais fundamentais, ou pode ser um fracasso totalizante, e saber que sempre ficará aquém da multiplicidade de aspectos possíveis.

Naturalmente, algum destes aspectos havia de sobressair no discurso, e este foi “a luz cadente”, símbolo escolhido da mortalidade. Como ele me disse uma vez, “é preciso aceitar que a beleza é algo que vai morrer”. Em algum de seus textos ele fala da tristeza que há nesta luz, e que pode ser facilmente percebida. Durante algum tempo, entre 1998 e 1999, morei num apartamento em Ipanema, um dos bairros do Rio sobre os quais incide mais diretamente a luz da tarde, e a tristeza daquelas horas me era insuportável. Ao mesmo tempo, não se pode fugir, fingir que aquela parte do dia não está acontecendo; e, em vez de seguir Dylan Thomas e odiar a morte da luz, Bruno quis enfrentar esta morte, admitir que tudo perece, que “tudo vai-se acabando, tudo passa / do que é ao que era”, descrevendo o dia que agoniza e a inquietação e a perplexidade que nascem desta agonia. Transfigurar este sentimento em indagação intelectual e olhar atento, e esta transfiguração em discurso poético, correndo paralelo, um nível acima da linguagem cotidiana, com voz própria, sem qualquer ingenuidade, fazendo referência a diversas obras que perfazem aquilo que chamamos de “Ocidente”, eis o projeto de Bruno Tolentino, eis a ambição sem par em nossa poesia, que nos abriu tantas possibilidades.

Não há como negar que esta sua preocupação estética, o tema central de sua obra, refletiu-se em sua vida: o homem cheio de vida que chegou ao Brasil nos anos 1990, capaz de falar horas e horas sem parar, foi primeiro se acalmando — o Bruno dos anos 2000, este da entrevista em vídeo, já não era o mesmo — , até ficar doente e ir morrendo aos poucos. Um dos momentos mais emocionantes que passei em nosso último encontro, em 12 de maio deste ano, foi quando ele, mostrando as mãos que quase não paravam de tremer, e sem precisar mostrar que parecia que perderia a consciência a qualquer momento, disse-me: “Pedro, quando o Papa João Paulo II aparecia com as mãos tremendo, aquilo não era o Mal de Parkinson não, era a vida que estava indo embora de seu corpo.” E, citando os versos finais de As horas de Katharina, já com bom humor, dizia: “fui virando espuma…” Depois continuava a piada, citando a história de um escritor francês (infelizmente, esqueci qual) que, velho e doente, ao ouvir a pergunta habitual sobre o que estava sentindo, disse: “Une certaine difficulté d’être” (“Uma certa dificuldade de ser”). Poucos dias depois ele iria para o hospital, para a última agonia. Só não digo que guardarei eternamente o remorso de não ter podido visitá-lo porque intuí naquele dia que estávamos nos vendo pela última vez, e pude lhe dizer o que ele obviamente já sabia: que se eu não o tivesse conhecido, teria perdido muito tempo com muita bobagem, que ele representou uma economia de anos e anos, um privilégio, uma dádiva. Também me surpreendi por ver que, apesar de eu sempre ter achado que ele não estava realmente preocupado conosco, os jovens que o circundavam, ele me conhecia muito melhor do que eu esperava, e me dirigiu algumas palavras, também ao telefone no dia 14, que me encheram a alma. Poucas alegrias neste mundo devem ser maiores do que obter o reconhecimento da pessoa que você mais admira.

Muitas coisas ainda poderiam ser ditas sobre a obra e a pessoa de Bruno Tolentino, e talvez eu venha a dizê-las, ainda que esparsamente, no futuro. Não param de surgir coisas em minha mente, anedotas, coisas que ele disse, e tenho certeza de que os muitos amigos que ele deixou pelo Brasil também têm muitas histórias sensacionais, que eu, aliás, adoraria saber. Agora é hora de passar ao nosso assunto de domingo, um poema, que obviamente haveria de ser dele, o espírito que preside desde sempre nosso domingo com poesia.

Entre tantos poemas que eu poderia ter escolhido, fiquei com este por razões sentimentais, antes de tudo. Este é o poema daquele fim de 1997, aquilo que relíamos — Alvaro e eu — com empolgação enquanto aprendíamos a entrar em O mundo como Idéia. Já cometi a filistinice — mea maxima culpa — de rejeitá-lo parcialmente por admitir uma interpretação herética, ao falar da “imanência de Deus”. A linguagem da poesia não tem a obrigação do rigor teológico, e cabe ao leitor fazer a interpretação mais generosa que puder. O eixo da obra de Bruno Tolentino está em O mundo como Idéia e A imitação do amanhecer, e é nestes livros que o vemos mais concentrado nas questões da petrificação da alma e da fugacidade da beleza. Nos outros livros temos um Tolentino mais relaxado, em que a pressão poética acumulada na composição daqueles dois volumes é liberada com mais facilidade, mostrando como o assunto, a equação dramática já estava armada na sua cabeça, e ele, sem se voltar diretamente para aqueles temas, poderia produzir resultados surpreendentes. É isto, aliás, que me parece mais claro em relação à obra de Bruno Tolentino: os anos hão de passar, e não deixaremos de voltar a ela, sempre surpresos com aquilo que encontramos.

Descanse em paz, meu amigo, meu mestre. Obrigado por tudo que você me disse, por todos os momentos juntos, pelos livros que escreveu. Reze você por mim e por todos nós que amamos a língua e a raça.

Leitura e comentário: 4m22s
[audio:amador.mp3]

O amador de serpentes
As horas de Katharina. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. pp 164-6

I

O ser é uma canção por Deus cantada,
e existe unicamente porque a canta
e canta e canta a voz dessa garganta
imemorial: e voltaria ao nada

se acaso interrompida na calada
da noite universal a sacrossanta
garganta emudecesse. Ah, canto, canto,
frase que te imaginas separada

da voz que te proclama e pronuncia,
enlouqueceste e, como uma espiral
demente, uma serpente na agonia,

negas que és duração e movimento
dessa voz infinita e musical,
tu, o hálito mesmo desse alento!

II

Ah, canta, canta a mal-agradecida
canção que se reclama emancipada,
como se a grande festa colorida
não fosse justamente uma alvorada

vinda toda de cima: o todo em cada
palheta detalhada e enternecida
de Deus… Como se cada pincelada
não fosse unicamente, como a vida,

dom do dedo de Deus no multicor,
prodigioso teto da capela
prevista: o alto arremesso do esplendor,

o ser transbordamento da mais bela
cornucópia, a do instante criador,
canção, canção subindo estrela a estrela…

III

E tal um longo afresco pela abóbada
universal, continuamente ecoa
a solene canção que nunca é toda
cantada, que só dura enquanto voa,

e vai do mais alto e mais além e aborda
o infinito fugaz como se fora
ela só o rebento dessa boda
da imanência de Deus com a luz lá fora.

No ar, no som, no reino aqui de baixo,
se um tão frágil prodígio se contempla
descobre-se na voz que o põe no espaço

e que o sustém no tempo: por exemplo,
quando acode à notinha que do alto
começa a resvalar, anda tremendo…

IV

Se os cabelos de ofídio da Medusa
mordessem-na… Mas não: aquelas cobras,
doido acorde de negras semifusas,
sabem que fazem parte dessa obra,

a obra-prima do mal que o sonho usa
para enredar-se, confundir-se às dobras
sinuosas, sem Deus… Tudo o que sobre
do ser que nega o ser é uma recusa.

Ó enigma da paixão que se apaixona
por si mesma! Ó absurda marafona
nostálgica do eclipse na obscena

obsessão da negação do nexo!
Que volúpia se nutre desse amplexo
em que o imenso, amputado, se apequena?

Autor: Pedro Sette-Câmara

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