De armas e bagagens

Bruno Tolentino, Os deuses de hoje, p. 220

Vou viver na orla da esquizofrenia:
de um lado o universo,
de outro a Bahia.

Ah, ser como o verso
que essa gente escreve
no sangue,
no mangue
dessa vida breve…

Viver assim, de leve,
sem ligar pra nada,
sem querer mais nada,
sem pagar entrada
no vago universo,
e esperar que anoiteça ou que amanheça.

Péssimo hábito esse de viver
com tudo o que eu vivi
metido na cabeça
que nem capuz de monge!

Bem sei que hei de viver como vivi
até hoje, de longe.

Ah, mas se pudesse ser perto daqui…

Duração: 3m16s
[audio:dearmas.mp3]

Os deuses de hoje

Talvez um pouco estranho dentro do conjunto da obra de Bruno Tolentino, composta de poemas densos e tensos, “De armas e bagagens”, ao fim de Os deuses de hoje, mistura a herança de leveza de Manuel Bandeira com o uso de temperos “metafísicos” na linguagem coloquial do Fernando Pessoa de, por exemplo, Dobrada à moda do Porto, com seu “restaurante fora do espaço e do tempo”.

O poema é quase em verso livre. Não segue uma forma fixa. Os versos 1, 14, 15 e 19 têm 10 sílabas. À exceção do verso 9, que tem 6 sílabas, os versos de 2 a 13 têm 5 sílabas. Os versos 16, 17, 18 e 20 têm seis sílabas. O verso final tem 11, por causa da interjeição inicial. Não fosse por ela, seria um decassílabo regular. Por isso repito: é quase em verso livre. A famosa “frase musical” de Pound está lá, perfeita, mas o “metrônomo” também.

É que o poema anda um pouco acima da linguagem comum, nem flutua no espaço como uma aberração concretista nem chafurda na banalidade. A rima, a métrica e a atenção à prosódia ressaltam os sons da linguagem como seu uso não-artístico não faz, exceto por acidente. Uma das marcas da feiúra é sempre a confusão, e esta confusão está sempre evidente na memória. Tome um exemplo arquitetônico. Veja se consegue se lembrar nitidamente das ruas que acha feias, e depois pense nas ruas que acha bonitas. Não consigo recriar em minha mente uma imagem nítida de nenhuma das grandes avenidas do Rio, mas muitas ruas de Paris vivem na minha memória mais claras do que as pilhas de livros diante dos meus olhos. Igualmente, é muito mais fácil recordar versos bem feitos do que a última conversa. Os versos são mais nítidos, os sons são mais contrastados ou mais reiterados. A fala habitual, comum, não-artística é armazenada como confusão. Por isso o poema pode aproveitar a linguagem coloquial, sem que ele mesmo seja coloquial na medida em que inclui um trabalho de prosódia que é, na verdade, um trabalho de lapidação ou de limpeza.

A lapidação fica mais visível nos versos 6 e 7. A estrofe segue o ritmo de 5 sílabas, e os dois versos, que poderiam ser um, não o quebram. Mas se estivesse escrito “no sangue, no mangue”, sem o corte, talvez a nossa leitura fosse um pouco mais apressada e este andamento não combinaria com o que está sendo dito, nem os sons “an, an” seriam adequadamente ressaltados. Quem suspira e logo depois diz que quer viver “de leve” não está falando rápido. O corte do verso reforça a pausa que a vírgula já marca, mas não elimina as cinco sílabas métricas que existiriam se fosse um verso só.

Já o verso final, na verdade uma interjeição mais um decassílabo regular, mostra o que é verso livre: é justificar a “perda” (com muitas aspas) do “metrônomo” com um ganho real de expressão e musicalidade. Nada no verso é gordo. Nada pode ser removido – nem a interjeição, e sobretudo a interjeição. A saída dela alteraria completamente a entonação com que o verso é dito e enfatizaria outra interpretação. Com a interjeição, que aparece pela segunda vez, preserva-se o tom de puro desejo, incondicionado apesar do subjuntivo. Sem a interjeição, o subjuntivo é que tomaria conta, fazendo o verso parecer parte de uma maquinação para morar ali, ou então que vem algo mais depois dele. É bom cogitar estas coisas; muitas vezes, uma ótima maneira de entender o que um poema é está em considerar o que ele não é.

Há duas marcas de linguagem falada coloquial, o “pra” do décimo verso e o “que nem” do décimo oitavo, que condizem com a proposta do poema. Não defendo a priori nem a linguagem popular nem a erudita ou, como diziam os parnasianos, preciosa; defendo o bom senso em todas as coisas deste mundo sublunar e creio que é possível usar bem os dois materiais e até combiná-los. Aqui o tom é de coloquialidade culta. O poema se dirige a leitores inteligentes o suficiente para achar graça em não se querer “pagar entrada / no vago universo” e simpatizar com o desejo de largar um tudo que não significa o trabalho de counter or desk, balcão ou baia (a versão atual da “escrivaninha” nas empresas), como no poema de Yeats que é meu favorito, mas o trabalho de pensar as tais das grandes questões.

Ainda que uma certa semelhança com Pessoa venha à mente com insistência, não é possível não observar a divergência de atitudes. Se Pessoa reafirmava sem parar a nostalgia da inconsciência que ele queria realizar em si mesmo, Bruno Tolentino assume que vai continuar pensando sem parar nas coisas em que pensa, que não lhe saem da cabeça “que nem capuz de monge”. Ser mais relaxado, mais “inconsciente”, “viver assim, de leve / sem ligar pra nada / sem querer mais nada” pode ser um bem, mas não é um bem que será buscado. Só vai ficar o desejo de permanecer perto daquele lugar que ameniza o sofrimento de pensar em tantas coisas. E, na verdade, o que mais se pode querer do lugar onde se mora?

Autor: Pedro Sette-Câmara

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