Crença no Zeitgeist & decadência artística

Aqui no Brasil estamos acostumados a estudar a literatura nas escolas não tanto como o trabalho de indivíduos livres, mas como uma espécie de resposta mais ou menos necessária às circunstâncias em que estes autores viviam, e da qual eles não foram mais que porta-vozes. A ninguém ocorre que o crítico que escreve a história da literatura pode escolher os fatos históricos mais convenientes e ressaltar certos aspectos da obra dos autores a fim de produzir este casamento absolutamente artificial, ou melhor, artificioso. A unidade de um livro passa a ser tomada como modelo da unidade da experiência imediata, e os autores de crítica e literatura passam, baseados nos capítulos anteriores, a tentar escrever o capítulo seguinte. A preocupação de ser moderno supera a preocupação de escrever bem, ou “escrever bem” é que passa a ser identificado com a interpretação “correta” do Zeitgeist, o “espírito dos tempos”, tratado não como a mera abstração de uma experiência coletiva imaginada mas como uma verdadeira substância em sentido aristotélico. Dos leitores, os autores esperam não tanto que se comovam ou se divirtam (como já falei, a função primordial da arte é oferecer alguma espécie de entretenimento, e se você acha que não existe entretenimento intelectual, bem, não há nada que eu possa fazer por você) mas que sejam capazes de interpretar a visão de mundo “proposta” por suas obras e, grau supremo da sensibilidade, sentir empatia por elas. Daí também que seja tão difícil encontrar uma crítica ou resenha negativa de uma obra. Não se trata só de coleguismo, mas de uma crença sincera de que a avaliação das obras é idêntica à avaliação e classificação de propostas e concepções, crença que se baseia no pressuposto gratuito de que todas as obras, em todos os tempos, estão sempre propondo algo – “uma resposta às circunstâncias de seu tempo” – , e não se propondo a entreter quem se volte para elas.

A visão de mundo do artista-proponente, obrigatoriamente particular, ainda influencia sua própria visão da arte e de suas supostas possibilidades, levando-o a postular que não se pode mais fazer isso ou aquilo. É claro que escrever em português quinhentista hoje seria ridículo, evocando a imagem de pessoas com roupas bufantes. Mas deduzir que formas de arte esgotaram-se baseado tão somente na própria experiência pessoal, agora concebida como condensação do espírito da época, faz tanto sentido quanto eu dizer que não é possível para ninguém usar uma determinada roupa só porque ela não fica bem em mim. Até onde eu sei, este tipo de visão predomina nas artes plásticas, na poesia e no teatro; as formas artísticas mais populares continuam relativamente a salvo, no sentido de que é muito difícil um artista consagrar-se nelas perante a crítica pretendendo “reinventá-las” segundo o que ele imagina ser a necessidade do presente. É mais comum que as formas sejam renovadas, não reinventadas; mas aquelas três foram tomadas por um horror absoluto ao que é cativante, imediatamente inteligível e comovente, e é isto que explica não só sua impopularidade como sua galopante irrelevância.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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