diana no banho

Vasco Graça Moura, em Laooconte, rimas várias, andamentos graves (Lisboa: Quetzal Editores, 2005).

via diana
pelo buraco
da fechadura.
era jacuzzi?

banho de espuma?
estava nua,
brilhava flava,
tinha o cabelo

puxado acima,
belas maminhas
à tona d’água,
olhos fechados

deliciada,
os pés nas bordas
dos azulejos
e marulhava

de leve a água,
num chape-chape
de mansa vaga,
como se a lua

mais perfumada
ali pousasse
na porcelana
enevoada.

logo se deu
por servo dela,
para cantá-la,
ensaboada,

e se pudesse
dar-lhe umas quecas
vezes sem conta
fora da água.

logo por dentro
os seus desejos
o devoraram,
espreitador

desprevenido,
dos próprios cães
inda comido.
quanto a diana,

não deu por nada,
não o puniu,
não se vingou,
não precisava.

Leitura e comentário: 2m12s
[audio:diana.mp3]

Como os leitores devem saber, mas não custa recordar, Diana, a Ártemis dos gregos, era a castíssima deusa da caça; o caçador Ácteon um dia pôde vê-la nua tomando banho, e foi punido com a transformação em um animal de caça, que seus cães acabaram por devorar. Feito o lembrete, passamos ao texto.

Algumas das palavras neste poema são de uso muito peculiar de Portugal; aqui no Brasil falar em “maminhas” seria estranho de uma maneira especialmente vulgar; e “dar-lhe umas quecas”, só compreensível pelo contexto, parece uma expressão vulgar, e não simplesmente coloquial, do português europeu. A objetividade desta única expressão vulgar, que serve perfeitamente para indicar o estado de espírito do neo-Ácteon, não sendo, portanto, uma vulgaridade gratuita, contrasta com a única palavra mais rebuscada do poema, o adjetivo “flava”, que significa, segundo meu bom dicionário Houaiss, “amarelado ou dourado, como o trigo maduro; fulvo, louro”. Ou seja, a Diana (as minúsculas do poema ficarão de fora do comentário) que toma banho é tanto loura quanto madura, o que até recorda a musa “alta, de um louro escuro” de Fernando Pessoa. A palavra rebuscada, além de fazer uma espécie de simetria tão ao gosto dos clássicos com a palavra vulgar, fica justificada pela sua precisão; não se trata de mero exibicionismo lexical.

Existe uma tentação de interpretar o poema de maneira cristã: os desejos que vão torturar o neo-Ácteon já são sua punição, assim como o pecado já é, de certo modo, a própria punição do pecador. Mas os próprios gregos e romanos já consideravam que a flechada de Eros ou Cupido era uma desgraça; que estar apaixonado, cheio de desejo, era uma coisa péssima; e que bom era levar a vida segundo a reta razão, obedecendo ao famoso ditado, est modus in rebus, há medida nas coisas. Os pagãos valorizavam a preservação da sociedade, e consideravam que os maiores bens eram a longevidade, a tranqüilidade, a prosperidade, e a proximidade da família: em suma, tudo o que é contrário ao desejo erótico intenso, que pede aventuras e se impõe como uma urgência. Antes de acreditar que o Judaísmo e o Cristianismo são as origens de todo moralismo, é preciso estudar a moral dos pagãos; e, na verdade, tratar a questão da moral religiosa usando uma idéia tacanha de “moralismo” já é incapacitar-se para o próprio estudo, que antecede, ou deveria anteceder, de muito, qualquer debate.

Ao reescrever a história de Diana e Ácteon, Vasco Graça Moura fez uma modificação além da transformação dos cães em desejos: no mito como chegou até nós, ao menos em sua versão mais conhecida, Ácteon vê a deusa banhar-se por acidente, mas o neo-Ácteon olha sua Diana de propósito. O primeiro Ácteon é quase um personagem de uma tragédia, um homem bom que cometeu um erro sem atinar para o que estava fazendo e teve que pagar um preço altíssimo. O segundo sabia muito bem o que fazia, e “espreitador / desprevenido”, não mediu as conseqüências de seus atos: apesar de saciar a curiosidade de ver Diana nua no banho, passou a ser consumido por desejos. Esta liberdade tomada por VGM combina com o espírito clássico, pois as histórias, os mitos, eram alterados por quem os contava, e estas diferenças de enredo, num contexto em que os mitos estavam ligados a práticas religiosas, seriam correspondentes, grosso modo, às diferenças teológicas que existem entre denominações do Cristianismo, que mantém a sua base narrativa, dada pelos quatro evangelhos, relativamente incontroversa. Relativamente porque o número de interpretações dos evangelhos (ao menos uma para cada nova igreja protestante) é muito maior do que o número de contestações ao texto mesmo dos evangelhos.

Mas as diferenças de narrativas podem ser muito mais profundas que as diferenças de tese: em que pese a teologia, católicos e protestantes podem ser reconhecidos como cristãos, qualquer que seja a relação que se queira estabelecer entre eles, seja a relação que há entre a ortodoxia e a heresia (aquela em que eu acredito, sendo católico) ou a que há entre pessoas que falam da mesma coisa de modo diferente. A história que informa nossa maneira de ver o mundo continua a mesma. Porém, a história do caçador que vê sem querer a deusa pode sugerir duas coisas: se você identificar os deuses com a natureza (como Homero, segundo alguns estudiosos), tem uma ordem cósmica inabalável que despreza de modo tão impiedoso quanto imparcial as suas intenções ou, se acreditar que os deuses são mesmo indivíduos imortais que efetivamente existem, está à mercê de seres igualmente impiedosos e poderosíssimos, que podem cobrar o que quiserem pelas transgressões, lembrando o que diz Gloucester no ato IV de Rei Lear:

As flies to wanton boys are we to gods;
They kill us for their sport.

(Tradução apenas do conteúdo: “Estamos para os deuses como moscas para meninos perversos; matam-nos por esporte.”)

O poema de VGM coloca em relevo a deliberação do espreitador em observar sua Diana; sua punição decorre deste ato perfeitamente voluntário, e realiza uma importantíssima inversão. Em vez de apresentar um mito puro que vai servir de chave interpretativa para os acontecimentos, como na versão antiga, já apresenta uma história interpretada, como se fosse o exemplo que prova a tese moral de que o desejo desenfreado é uma punição inevitável para quem abusa de sua liberdade. Do universo mitológico, em que imagens e narrativas servem de “explicação” para a experiência direta, passa-se ao universo da razão, em que as explicações já estão dadas e a arte consiste em manipular ilustrações. Nenhuma destas duas perspectivas deve qualquer coisa à religião cristã ou judaica, mas a diferença entre elas é extrema; tanto que um Santo Agostinho considera que foi o domínio da razão natural que preparou o mundo para a vinda de Cristo; nisto, em parte, consistia a “plenitude dos tempos”.

Formalmente, o poema tem muitas rimas que não parecem obedecer a nenhum esquema. Se tivessem um esquema rígido e óbvio, o poema pareceria uma canção; sem ele, se aproxima muito mais dos textos clássicos. Mas a presença das rimas mantém presa a atenção à melodia, que é desordenada como os desejos do neo-Ácteon. O metro curto e raro parece também refletir a natureza destes desejos, cuja intensidade nunca é muito duradoura. Se a sintaxe é uma espécie de ordem, o metro curto é uma espécie de corte brusco que aponta a dificuldade de concentrar-se que vem da observação de Diana ao banho. A presença de elementos que nos capturam imediatamente (isto é, atendem à demanda dos sentidos), mas quando olhados de perto confirmam a unidade da obra (atendem à demanda do intelecto), é que tornam grande uma obra, seguindo aliás a recomendação de Auden: “na arte, antes de tudo, devem vir o assunto, o assunto e o assunto” – tudo procede e concorre para o mesmo fim, e é isto que estabelece a força coesiva que a vida cotidiana não consegue ter.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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