Os mármores de Elgin (ou do Parthenon)

No início do século XIX, o Conde de Elgin comprou dos ocupantes turcos na Grécia dois terços dos mármores que enfeitavam o Parthenon e os levou para Londres, onde, alguns anos depois, passaram a ficar expostos no Museu Britânico. Os mármores são conhecidos como “mármores de Elgin” ou Elgin marbles, tanto que John Keats referiu-se assim a eles quando escreveu meu poema favorito, On Seeing the Elgin Marbles for the First Time. Há muito tempo a Grécia quer que os mármores sejam devolvidos, e me parece que a opinião geral no meio dos helenistas é que eles deveriam ser devolvidos, tanto que já foi criado um novo nome para os mármores: em vez de serem chamados “de Elgin”, devem ser chamados “do Parthenon”.

A questão é aparentemente insolúvel. Se os mármores forem devolvidos, abre-se um precedente para que todos os países comecem a pedir suas “riquezas históricas” de volta, o que levaria ao esvaziamento dos museus europeus e americanos, e na verdade isto já vem acontecendo em relação a objetos menos importantes. Mas não me parece que o simples fato de que existe hoje um país chamado Grécia dê direitos ao governo daquele local sobre a produção artística ali realizada há milhares de anos, ainda mais quando ela foi retirada através de uma compra. Os gregos podem questionar a legitimidade de tudo que os ocupantes turcos fizeram, mas não creio que fossem questionar aquilo que teriam feito se eles mesmos ocupassem algum lugar. A Grécia era parte do Império Otomano, isto era um fato, ainda que desagradável. Os ingleses ainda poderiam alegar que são herdeiros mais diretos daquela tradição que produziu o Parthenon do que os gregos modernos, mas isto também seria uma bobagem: se por acaso eu recebesse de herança um monte de livros que não me interessam, uma pessoa que se interessasse não teria automaticamente um direito legítimo sobre eles.

Os argumentos lançados acima são argumentos de princípio, e quero mostrar que não existe um princípio razoável que justifique a devolução dos mármores, o que não impede, é claro, a simpatia ou antipatia por um dos lados. Já os argumentos práticos seriam principalmente dois, um a favor de cada lado. A Grécia pode dizer que o Parthenon fica desfigurado sem os mármores. A Inglaterra pode alegar que cuida melhor dos mármores do que a Grécia, o que também parece ser algo geralmente aceito. Aparentemente, os mármores que estão no Museu Britânico (nunca estive lá) estão em melhor estado que os mármores que estão na Grécia, e além da questão da eficiência inglesa versus o desleixo mediterrâneo, o próprio clima favorece a permanência em Londres. Os dois argumentos são muito bons, o que só dificulta a solução.

Não consigo formar uma opinião a respeito, mas tendo a ficar do lado do Museu Britânico, e por razões um tanto subjetivas. Sim, a Inglaterra (e os EUA) me parecem mais herdeiros do período clássico grego do que a própria Grécia, e há dois séculos os mármores recebem no Museu Britânico o tratamento que merecem, o que comprova o primeiro argumento. Mas acho que, acima de tudo, não gostaria de ver o fluxo da História recusado por argumentos de “legitimidade”. Acho até que este argumento pode ser usado na luta retórica pela obtenção dos mármores, mas é um golpe baixo, algo tão desprovido de honra quanto os bombardeios (sim, eu acho que todo bombardeio deveria ser um crime de guerra, e acho que uma das maiores tragédias do nosso tempo é a impossibilidade prática da guerra honrada). O próprio governo grego não aceitaria este argumento caso uma cidade desejasse separar-se do país porque o governo não existia quando a cidade foi criada. Estas questões são antes de força física, e por isso é feio fingir que não são.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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