A comédia da meia-entrada

Tomada em si mesma, a meia-entrada garantida por lei para qualquer grupo é obviamente uma aberração. É uma interferência no direito de propriedade. Se tenho um teatro, quem pode me dizer quanto devo cobrar pelos ingressos? Isto me parece tão óbvio que não consigo nem me sentir estimulado a continuar argumentando. O sujeito que acha que tem um direito moral a pagar metade do ingresso só porque vai à escola está na verdade fazendo escola na desonestidade, travestindo de grande aspiração intelectual o que é apenas seu desejo de pagar menos.

Também não é sensato imaginar que a meia-entrada devesse ser apenas mais regulamentada. Claro que existem filmes e filmes, peças e peças, obras que podem contribuir para a famosa “formação” e outras que nem tanto. Mas quem realmente acha que uma comissão estatal deveria decidir que obras são essas? Ok, claro que muitos brasileiros acham. Mas os brasileiros são naturalmente totalitários. Eles nunca suspeitam do governo; apenas acham que o governo deveria ser imenso sim, e decidir tudo, mas deveria decidir bem. Falta só convencermos São Francisco, Moisés e Abraão a assumir seus lugares na burocracia estatal.

Agora, no contexto brasileiro, não é possível negar que a meia-entrada faz algum sentido. Talvez os exibidores de filmes não recebam nenhum subsídio, mas os donos de teatro alugam seus teatros para as peças. Por isso talvez os exibidores percam dinheiro com a meia-entrada, mas quem perderia, ou deixaria de ganhar, no teatro, são os produtores. Estes produtores, porém, certamente não perdem dinheiro, porque fazem tudo através de leis de incentivo. Tirando as peças amadoras, o teatro profissional brasileiro já chega ao público inteiramente pago, e o que vier é, literalmente, lucro. Por isso até ouso dizer que o maior problema dos nossos empreendimentos culturais – e aí falo do cinema também – não é tanto que seja difícil ganhar dinheiro com eles, mas que seja praticamente impossível perder. Qualquer loucura já está paga e não há razão para produtores buscarem obras com potencial comercial; sua única função é garantir que o orçamento não seja estourado. Se é assim, se o governo já “abre mão” de impostos (oh, um gesto de magnanimidade tocante e comovente), e com essa dádiva sublime faz com que as obras não dependam do pérfido mercado, nada mais natural que também decida sobre o preço dos ingressos. Os produtores não podem querer todos os benefícios dos subsídios e todos os lucros ao mesmo tempo, simplesmente porque não estão exercendo uma atividade capitalista em que há risco e investimento, e é particularmente ridículo ver uma classe de pessoas que sempre construiu sua própria lindeza sobre seu nojinho ao mercado vir agora posar de capitalistas oprimidos pelo Leviatã regulamentador.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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