Paisagem pelo telefone

João Cabral de Melo Neto, Quaderna, 1960; em Serial e Antes. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2000

Sempre que no telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,

sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,

a alguma manhã de praia
no prumo do meio-dia,
meio-dia mineral
de uma praia nordestina,

Nordeste de Pernambuco,
onde as manhãs são mais limpas,
Pemambuco do Recife,
de Piedade, de Olinda,

sempre povoado de velas,
brancas, ao sol estendidas,
de jangadas, que são velas
mais brancas porque salinas,

que, como muros caiados
possuem luz intestina,
pois não é o sol quem as veste
e tampouco as ilumina,

mais bem, somente as desveste
de toda sombra ou neblina,
deixando que livres brilhem
os cristais que dentro tinham.

Pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesses envolvida,

fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,

e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria

que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,

sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.

Leitura e comentário: 3m04s
[audio:paisagem.mp3]

O que vou dizer não é pouco: João Cabral de Melo Neto inventou uma nova maneira de fazer poesia em português, cuja imitação mais ou menos esmerada ainda rende boas resenhas nos suplementos literários. Esta nova maneira consistia em seguir ao máximo a fala (das pessoas cultas, naturalmente), metrificando-a sorrateiramente, respeitando ao máximo o corte que é fim de cada verso, e inserindo aqui e ali uma sílaba forte num local inesperado, a fim de cortar de tempos em tempos a fluência da leitura e chamar a atenção para o próprio texto. No caso de “Paisagem pelo telefone”, temos ainda um feito impressionante, que ele repetiu muitas vezes, em outros poemas: o uso de um dos metros mais comuns e marcados da língua, a redondilha maior, com sete sílabas, sem que ele pareça comum e marcado. A redondilha é o metro preferido das cantigas populares e de quase tudo que gruda no ouvido; é também a “medida velha” que saiu de moda quando Sá de Miranda trouxe o decassílabo da Itália, no século XVI. É óbvio que em português ela possui uma nova dimensão – mais, digamos, moderna e ambiciosa – desde que Camões a escolheu para Babel e Sião, mas quantas obras memoráveis aproveitaram-na deste jeito nos quatro séculos que separam um poema do outro? Mesmo assim, “Babel e Sião” é todo rimado, e o tamanho do poema leva a uma certa monotonia (monotonia não quer dizer chatice) que acaba nos embalando em sua leitura. Aliás, mais de uma vez – e também nos Lusíadas – vi que estava tão embalado pelo ritmo que não prestava mais tanta atenção ao significado. João Cabral detestaria que isso acontecesse (mesmo que tenha escrito Morte e vida severina), pois, falando da amizade que tinha por Auden, comparando-a a uma conta bancária, disse:

E de onde há muito que sacar:
como botar prosa no verso,
como transmudá-la em poesia,
como devolver-lhe o universo

de que falou; como livrá-la
de falar em poesia, língua
que se estreitou na cantilena
e é estreita de coisas e rimas.

(“A W. H. Auden”; A educação pela pedra e depois, p. 247)

Por isso, nada de “cantilenas”, nada de ritmos batidos: em “Paisagem pelo telefone”, quase não percebemos que se trata de um poema escrito em redondilhas, de tão acostumados que estamos a valsar com elas. As rimas quase sempre toantes, parciais, (despida / mínima, por exemplo), ainda que sempre nas mesmas posições, não chegam a marcar com tanta força o ritmo: temos a impressão de que ele está lá, que volta de vez em quando, mas não está escancarado. Talvez seja mais fácil dizer que um esquema de rimas muito marcadas é como uma coreografia, e um esquema de rimas menos marcadas (neste caso, só de dois em dois versos, e não em todos) como as boas maneiras: nem sempre tão espontâneas, mas certamente não tão artificiais. João Cabral não está preparando um desfile, mas arrumando a casa para receber uma visita. Os toques são sutis; o visitante é envolvido sem perceber, e a sensação de gratificação, nas primeiras vezes, é maior depois que a leitura é finda.

Se insistirmos nesta comparação, vamos ver que algumas das imagens oferecidas, que hoje são mais do que lugar-comum na poesia brasileira, e até na música popular, são como as pequenas delícias que evidenciam a especialidade da ocasião: as sinestesias e aliterações de “mais manhã porque marinha” e “meio-dia mineral”, e as sugestões de “como se de tal manhã / estivesses envolvida” e “só de teu banho vestida”.

Esta atitude relativamente austera, sem exibicionismos, tornou comum uma acusação dita sem tom de acusação a João Cabral: a de não ser “lírico”. Confesso que nunca consegui encontrar um sentido preciso para esta palavra; parece, porém, que ela tem a ver com falar de si mesmo de um modo sensual. É verdade que João Cabral não falava de si (ao contrário de Fernando Pessoa, que só falava de si), mas não me parece que a poesia possa escapar da sensualidade, já que a beleza na combinação de palavras, que também são sons, é uma beleza que afeta os sentidos. Na verdade, João Cabral criou uma nova maneira de combinar belamente as palavras, em vez de aproveitar-se de maneiras já existentes; se quiserem chamá-lo de “antilírico” só por não falar de si, bem, que seja.

Um problema, porém, existe na obra de João Cabral, problema mais evidente em seus imitadores. Tendo encontrado uma espécie de fórmula para fazer poemas, e não tendo se dirigido a tantos temas diferentes, e buscado tons diferentes (como Auden, por exemplo), depois de algum tempo entendemos como “funciona” o poema de Cabral e já não nos surpreendemos. Seus imitadores, por sua vez, apreenderam esta fórmula e decidiram, no máximo, estendê-la ao verso dito “livre”, chamando esta combinação de coloquialismo pontuado por surpresas semânticas com rigidez formal de “rigor”. Algumas das imitações até rendem bons poemas, o que certamente não é desprovido de mérito. Mas este “rigor”, ainda mais depois que os concretistas passaram a gostar dele também, tornou-se o grande refúgio de quem não é poeta mas gostaria muito de sê-lo. Nada diferente, aliás, dos leitores de Fernando Pessoa que acham que expressar a própria confusão mental é fazer poesia.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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