O tigre de William Blake

William Blake

Tradução de Vasco Graça Moura, publicada em Laooconte, rimas várias, andamentos graves (Lisboa: Quetzal Editores, 2005).

tigre, tigre, chama pura
nas brenhas da noite escura,
que olho ou mão imortal cria
tua terrível simetria?

de que abismo ou céu distante
vem tal fogo coruscante?
que asas ousa nesse jogo?
e que mão se atreve ao fogo?

que ombro & arte te armarão
fibra a fibra o coração?
e ao bater ele no que és,
que mão terrível? que pés?

e que martelo? que torno?
e o teu cérebro em que forno?
que bigorna? que tenaz
pro terror mortal que traz?

quando os astros lançam dardos
e seu choro os céus põem pardos,
vendo a obra ele sorri?
fez o anho e fez-te a ti?

tigre, tigre, chama pura
nas brenhas da noite escura,
que olho ou mão imortal cria
tua terrível simetria?

Leitura e comentário: 3m03s
[audio:tigre.mp3]

William Blake

The tyger, parte de Songs of Innocence and of Experience, de Willam Blake, é um dos poemas ingleses mais conhecidos no mundo luso, e por isso mesmo um dos mais traduzidos. Contudo, ninguém conseguiu vertê-lo melhor que o português Vasco Graça Moura, que merece, por seu trabalho como crítico, poeta e fantástico tradutor (da Divina Comédia, dos Sonetos de Shakespeare, por exemplo), o título inexistente de “Jorge de Sena do nosso tempo”. Apesar de tudo o que é evidentemente perdido em qualquer tradução de poesia, a mim parece sumamente filisteu não admitir que, em certos trabalhos excelentes, muita coisa é recuperada e, por conseqüência, uma obra em língua estrangeira pode passar a ocupar um lugar na nossa língua. Os anglos nunca foram bobos e sempre consideraram as traduções dos salmos por Miles Coverdale parte de seu cânon; e Samuel Johnson disse que as traduções dos clássicos feitas por Dryden e Pope “afinaram” a língua inglesa de tal modo que, depois delas, nunca mais apareceu um poeta que não captasse sua melodia. Tenho a impressão de que, no caso do português, foi Camões quem prestou este serviço.

Uma boa tradução de um grande poema em língua estrangeira também traz, além das possibilidades sonoras, certas possibilidades imaginativas. As obras em língua portuguesa parecem ser muito amigas do realismo e da intimidade, talvez pela influência francesa; já na Inglaterra parece que sempre houve mais amor por tudo que parecesse exótico e fantástico. De fora, posso dizer que não me espanta que um poeta como Blake tenha surgido ali, mas duvido muito que Blake gostasse de ser considerado “mais um poeta fantástico”, já que ele parecia levar muitíssimo a sério tudo o que escrevia – uma atitude que, curiosamente, pode ser desdenhada por muitos autores mas que parece garantir mais longevidade às obras do que seu contrário.

Songs of Innocence and of Experience trata de dois aspectos da criação: de um lado, o que é pequeno, inocente, frágil e belo por sua delicadeza, tendo como símbolo o cordeiro, o “anho” (palavra que pouco usamos no Brasil), que remete obviamente ao menino Jesus. De outro, aquilo que é majestoso e tremendo, tendo como símbolo o tigre. O poema “The tyger”, aparecendo na segunda parte, Songs of Experience, complementa The lamb (“O anho”) nas Songs of Innocence, poema em que Blake afirma candidamente ao cordeiro com quem dialoga que Aquele que o criou também chama a Si mesmo “cordeiro”; daí que, diante da força do tigre, ele prefira apenas perguntar: “fez o anho e fez-te a ti?” (“did he who made the lamb make thee?”). Estes dois aspectos da existência – reluto em falar de “arquétipos” para evitar qualquer associação com o Dr. Jung – estão simbolizados por duas estrelas que estão a praticamente 180 graus uma da outra: Aldebaran, o “Olho do Touro”, e Antares, “o Coração do Escorpião”. Ainda que hoje elas estejam próximas dos pontos norte e sul, por causa da precessão dos equinócios, há coisa de 5000 anos marcavam os pontos leste e oeste, daí sua associação com o início e o fim das coisas – o ponto leste marca a primavera e o oeste o outono – , e também com certos mitos. Hoje as estrelas não têm mais personalidade, e são tratadas genericamente apenas pelo nome de “estrelas” (assim como para mim, nascido e crescido na cidade, só existem “árvores”), mas é muito difícil achar que Blake, no século XVIII, não tivesse considerado um simbolismo tão antigo, ainda mais considerando os pendores que tinha para estas considerações. (A propósito: se você for pesquisar estas estrelas, vai ver que elas também foram associadas a anjos; mas saiba que o Judaísmo e o Cristianismo só reconhecem oficialmente os nomes de três deles, Miguel, Rafael e Gabriel; pronuncie por sua conta e risco os demais nomes, porque podem ser de anjos caídos, e dizer um nome é invocá-lo.)

Ao ler o poema, atente para seu ritmo bem marcado: um dos maiores feitos de Vasco Graça Moura é fazer com que consigamos ouvir o original mesmo na tradução. Os poemas de Blake são exemplos extremos de como a infidelidade à métrica na leitura pode fazer com que grande parte do efeito final seja perdida – e a leitura da poesia será o tema do próximo texto dominical.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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