Soneto à Carolina

Machado de Assis, em 1906

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Leitura e comentário: 2m27s
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Poemas de Machado de Assis

Este é um dos meus poemas favoritos na língua, e me lembro do dia em que o li pela primeira vez, ainda na escola, com a professora Marta de Senna. Foi uma experiência que moldou para sempre a minha percepção de Machado de Assis.

No entanto, ao fazer pesquisas para o texto de hoje, encontrei a transcrição de uma palestra proferida por Ildásio Tavares na Academia Brasileira de Letras. O trecho em que ele comenta o poema me parece definitivo, e, em seu conteúdo, um modelo de crítica e ainda mais do tipo de crítica de que precisamos, que se abstém de julgamentos do tipo “o autor e sua época” e se concentra no poema enquanto obra ou objeto de arte, que é o que ele é de fato. Não tenho o que tirar nem acrescentar, por isso passo-lhe a palavra. Fiz apenas algumas mínimas edições na transcrição, ainda um pouco crua no site da ABL, para facilitar a leitura.

O primeiro verso do poema é também um pentâmetro iâmbico; “Querida, ao pé do leito derradeiro” é um pentâmetro iâmbico. Eu falei em Edgar Allan Poe, falei na tradução de “O corvo”. Obviamente, Machado de Assis deve ter lido Philosophy of Composition, porque essas duas obras estão intimamente ligadas, umbilicalmente ligadas, pois Philosophy of Composition é a receita de “O corvo”. Nela, ao afirmar todos os ingredientes necessários para um bom poema no quesito temática, Poe diz que a temática mais sublime para a poesia é a morte da mulher amada. Observem bem isso. Então ele faz um poema, no qual fala do sentimento de mágoa dele pela morte da mulher, que ele expressa no refrão com as palavras Lenore e never more, e por aí vai dezoito vezes.

Olhem, “À Carolina” é exatamente um poema feito pela morte da mulher amada. Quando Machado estava remanejando as palavras para expressar a sua mágoa, ele estava seguindo, inconscientemente ou não, a receita de Poe, o ensinamento de Poe, de que o tema mais sublime da poesia é a morte da mulher amada, com uma diferença principal. Quando Poe escreveu “O corvo”, a mulher amada dele não tinha morrido ainda, o que faz o poema mais prodigioso ainda, porque confirma, mais ainda, as suas teorias de que o valor da arte independe da emoção.

Poe deu, digamos assim, o tom da modernidade, a partir da pouca importância pela emoção sentida e da grande importância pela emoção escrita, que veio a redundar no traço de “O poeta é um fingidor”, de Fernando Pessoa. Mas, no caso de Machado de Assis, essa emoção sentida dele não foi tão imediata; aí ele já estava seguindo o ditame de um outro poeta de língua inglesa, Wordsworth: Poetry is emotion recollected in tranquility.

Machado de Assis era a própria tranqüilidade. Então, na medida em que ele recolhia, que ele recordava a emoção que sentiu com a perda da Carolina, na tranqüilidade de seu espírito, ele estava sendo um wordsworthiano. E daí o poema ser uma lágrima numa taça de cristal, quer dizer, de um requinte e de um trabalhar estética que, sinceramente, poucos poemas e sonetos da língua portuguesa se igualam.

Coisas assim que eu só queria chamar atenção de vocês, para não alongar muito esta conversa. Observem que a palavra inicial do primeiro verso, rima com a palavra final do segundo – “querida / vida”, isto dá um efeito fantástico! – “Querida, ao pé do leito derradeiro / em que descansas desta longa vida” – aí volta o som. E quanto ao i que, inclusive, é a vogal mais fechada da língua portuguesa, e obviamente a mais lamentosa, tratando-se de um poema de mágoa, de dor, de saudade, ele é perfeito. E esse i, e mais ainda ido, ida, ele volta inúmeras vezes no poema.

Isso é uma das coisas que eu queria chamar atenção. Então, “querida” aqui, depois o ida de “vida”, e novamente “querida”, e desta vez, rimando dentro do quarteto, depois “lida”, “apetecida”; e esse som volta em “unidos”, “mal feridos” e “vividos”. Há sete vezes esse som no poema: ida, ido, que é muito parecido com o som de um vagido, o som de um lamento. Outra coisa aqui é a letra d, o fonema /de/, um fonema oclusivo, porque no primeiro verso vocês vão ver que o pentâmetro iâmbico é reforçado pelo fato de que, antes de cada vogal do pentâmetro iâmbico, tem uma consoante oclusiva, à exceção do queri, (queri aí é uma fricativa) e rra de derradeiro, mas “queri-da, ao pé do lei-to derra-deiro”.

O congestionamento dessa consoante oclusiva d, e t que é a mesma coisa, dá um efeito ainda mais cadenciado para o pentâmetro iâmbico, em versos assim de uma concentração semântica muito grande. O primeiro verso é trimedo [nota de PSC: não encontrei esta palavra em nenhum dicionário], tem apenas três palavras. Em seguida, ainda no primeiro quarteto, terceiro verso, essa aliteração de “aqui venho e virei” e esse magistral quase oxímoro de “pobre querida”, uma forma brilhante de sintetizar, com duas palavras, os dois aspectos que nos afligem, quando morre a pessoa que nós amamos, que é o aspecto da dor que a gente sente por ela e do amor que ainda permanece. É um amor dolorido, uma dor amorosa.

Isto está expresso em “pobre querida”, em que ele escolheu com uma felicidade muito grande o adjetivo – “aqui venho e virei, pobre querida”. Não é uma mulher querida, não é a linda querida, não é a boa querida, a fabulosa; é a “pobre querida”. Isso é um quase oxímoro, oxímoro é quando existe, realmente, uma oposição como “alegre tristeza” e assim por diante. No caso aqui, eu diria que ele é um quase oxímoro, chega até a funcionar como isso – “pobre querida”. E isso se completa novamente no quarteto com as aliterações de “trazer-te o coração do companheiro”, quer dizer, as duas palavras principais, os dois substantivos, começam com co e co – “coração/ companheiro”.

Ele vai: “Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro”. Eu falei nesse d, mas esse d eu contei aqui – porque ele está presente inúmeras vezes, isso me chamou atenção. Coloquei aqui porque você tem essa letra d, está riscada aqui. Olhem, ele tem toda, derradeiro, desta, verdadeiro, querida, vida, querida, lida, apetecido, arrancado, unido, separado, deixa, vida, ido. Tem dezesseis vezes a consoante d; estatisticamente, é mais de uma por verso. Esse d é o leit-motiv sonoro, de certo modo, do poema da dor. Eu sempre penso, quando vejo a presença de dezesseis d nesse poema. Penso que Machado estaria pensando em d de dor. De qualquer maneira, esse d o tempo todo é extremamente marcante, expressivo dessa dor surda, essa dor interior que ele transmite sem nenhum grito, sem nenhum escândalo, sem nenhuma patética, de uma classe fantástica – mas que você sente, por isso, com muito mais intensidade, devido à dignidade com que ele consegue colocar essa coisa muito pessoal dele.

Carolina era tudo para ele. Colocar uma coisa muito pessoal num poema é como sair nu. É muito difícil, estou aqui na presença de escritores. Eu perguntaria: quantos teriam coragem de expressar um sentimento profundo seu, fazer dele uma mercadoria para vender ao consumo dos olhos, não é? É um ato talvez até de despudor, sei lá! ainda mais num homem como Machado, um homem recatado. Mas ele precisava fazer esse poema. Ele tinha que filtrar essa profunda dor, que é a maior dor que um homem pode sentir, através do que ele podia fazer, através da sua arma, através do seu mundo.

Acho que, por exemplo, em determinado momento, o poema se adoça com sibilantes, quando ele quer falar do que tinha de bom, quando o verso é duro, quando o poema é de dor, quando a poesia é muito consonantal, e há consoantes oclusivas, principalmente o d. Mas aqui no sétimo verso, no segundo quarteto – “que, a despeito de toda a humana lida, fez nossa existência apetecida” – é uma aliteração de três sibilantes, “nossa existência”, porque o xi é uma sibilante sonora, como se fosse z, então, são quatro sibilantes, na realidade. “Fez nossa existência” – “fez” é também uma sibilante, então, são cinco sibilantes num verso.

É porque o verso aí se adoça, ele está falando da “existência apetecida” dele, então, a coisa fica doce, e por aí lá vai, quando a dor chega em volta – “trago-te flores – restos arrancados” – a palavra “arrancados” é a palavra mais dura do poema. “Restos arrancados” – ele não colheu a flor, reparem bem, não disse trago-te flores colhidas, não; ele falou em restos arrancados”. São duas vibrantes bem duras: “trago-te flores – restos arrancados”.

Aí continua: “da terra”, o r duro, “trago-te flores – restos arrancados da terra que nos viu passar unidos” – ó, o grito aí -“, e ora mortos nos deixa e separados”. Esse verso é um dos versos mais elegantes da língua portuguesa. “Ora mortos nos deixa e separados” – ele poderia ter feito a sintaxe normal e ter dito “e ora nos deixa mortos e separados”, mas preferiu a zeugma progressiva, preferiu colocar “ora mortos nos deixa”, antepor o “mortos” e propor “separados”, porque dessa forma ele dilacera a expressão, e também mostra o absurdo da coisa toda, e divide o sentimento – “mortos e separados”, o separado fica separado e o morto fica morto.

Acho fantástica essa elegância do hipérbato aqui. Foi inspirado nesse poema que desenvolvi, digamos, o título desta palestra. É quando Machado confessa que pensa tudo e que as coisas por ele são pensadas. Ele diz – “se trago nos olhos mal feridos pensamentos de vida formulados, são pensamentos idos e vividos” – pensamentos vividos, não é? Isso que é realmente a verdadeira obra de um verdadeiro escritor, verdadeiro poeta – “pensamentos vividos”, “idos” porque passaram, mas “vividos”. Tudo aí nesse poema e na vida de Machado foram realmente pensamentos vividos; é aí que ele se completa totalmente, nesse poema, no meu entender, dentro dessa dialética de sentir e de pensar.

Ele prova e diz e declara – está aqui, nós temos aqui – e se um grande advogado de defesa defender Machado, e provar para mim que ele não está dizendo isso, vai estar aqui; eu vou ter réplica e tréplica até terminar a noite, porque acredito piamente que ele está fazendo aqui uma declaração estética. Uma declaração de que ele é uma pessoa que sente e pensa, mas que, fundamentalmente, pensa tudo o que sente, e nesta harmoniosa fusão, ele colocou o sinete de grande poeta.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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