O culto da tosquice

Quando eu era adolescente, ou mesmo nem tanto, lembro que discutia muito com meus amigos a respeito das coisas que achávamos sublimes, ainda que o amadurecimento tenha mostrado que algumas delas não eram tão sublimes assim (como o rock progressivo). Mas sempre buscávamos o que era melhor, o mais alto, o mais perfeito, o modelo ideal; éramos sérios em relação ao que não era sério, mas a atitude de seriedade e reverência não era posta em questão. E, se tínhamos contato com coisas toscas, era algo acidental. Lembro de esbarrar na TV com o Alborghetti batendo na mesa e de rir disso, sozinho e com os amigos, mas também lembro que não só não procurava o Alborghetti como ele ocupava pouco do meu tempo.

Aos 19 anos eu podia não ter amigos 10 anos mais jovens, mas aos 29, fazendo a graduação de grego, eles são inevitáveis. E, muitas vezes, ao ter contato com a geração dos nascidos nos anos 80, tenho a impressão de que a busca pela tosquice se tornou a norma. A quantidade de referências a coisas toscas que meus infantes amigos fazem é imensa, e o entusiasmo com que falam daquilo que na verdade desprezam, além de me dar a sensação de um abismo geracional, mostra, pelo distanciamento de si mesmos, o quanto de pose e cálculo existe nessa atitude. Pessoas que tiveram uma educação superior à média optam pela vulgaridade ao falar, escrever e consumir. A faculdade, com seu vício de transformar a abstração do juízo de valor para efeitos científicos em preceito moral, acaba legitimando tudo isso: “o que eu vejo é tosco, o que eu faço é tosco, o professor fala bem da tosquice, a tosquice é a norma universal”. O amor pelo sublime e uma atitude de reverência se tornaram, para usar o vocabulário acadêmico, a verdadeira transgressão.

Não tenho idéia das causas disso. Só tenho medo de estar generalizando o que poderia ser uma situação muito particular da minha adolescência.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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