A pedra e a saxífraga

Em dezembro de 2006 Ruy Goiaba postou um belo, leve e curto poema de William Carlos Williams, e decidi arriscar uma tradução.

A propósito: isto é uma saxífraga.

A Sort of Song
William Carlos Williams

Let the snake wait under
his weed
and the writing
be of words, slow and quick, sharp
to strike, quiet to wait,
sleepless.
— through metaphor to reconcile
the people and the stones.
Compose. (No ideas
but in things) Invent!
Saxifrage is my flower that splits
the rocks.

Como uma canção
William Carlos Williams

Espreite a cobra sob
sua erva
e a escrita
seja de palavras, lentas e lépidas, precisas
no ataque, quietas na espera,
insones.
— pela metáfora reconciliar
as pessoas e as pedras.
Compõe. (Não idéias,
mas nas coisas.) Inventa!
Saxífraga é minha flor que rompe
as rochas.

Leitura e comentário:1m30s
[audio:saxifraga.mp3]

Ruy Goiaba quis contrapor o poema de Williams ao famoso No meio do caminho, de Carlos Drummond de Andrade, um poema que, segundo o próprio autor, é “insignificante em si” (por isso não o reproduzo), mas que se tornou muito conhecido, provavelmente como exemplo perfeito do argumento “se isso é poesia, eu também posso ser poeta”. Em algum momento vou discutir a natureza da má poesia, mas não agora; agora basta dizer que a pedra de Drummond é apenas um poema que, por sua simplicidade extrema, sugere profundidade, mesmo quando não há nenhuma, e temos medo de não ter entendido nada. Tememos, na verdade, que o poema se refira a um contexto que não conseguimos apreender, quase como numa linguagem codificada: a pedra seria x, o caminho seria y. Mas tudo o que há para entender é claro: tinha uma pedra no meio do caminho, e isto foi um acontecimento inesquecível. Nem sabemos se a pedra se mostrou um obstáculo intransponível ou não; só supomos que o poeta não está mais naquele caminho.

O poema de Williams, como diz muito mais coisas, se presta muito mais à interpretação. Começa descrevendo como deve ser a escrita (obviamente literária) e termina mencionando a saxífraga, a flor que consegue brotar na rocha. A imagem é bastante clara: a rocha indica a mudez, ou a inércia lingüística que é só barulho sem sentido, e a saxífraga indica a poesia, que, pela ordenação surpreendente de palavras, produz vida onde antes não havia nada, rompendo a aridez e a banalidade. O desenho do poema na tela (ou na folha) sugere o movimento da cobra, o que naturalmente decorre dos próprios cortes nos versos; a escolha de adjetivos para qualificar a escrita, sugerindo economia e precisão, é confirmada pela pouca extensão do poema; e, assim como a cobra dá o bote ao fim do tempo de espreita, Williams abre o jogo no final com a metáfora da saxífraga, e o próprio exotismo da palavra reforça a surpresa.

Drummond viu a pedra, mas limitou-se a registrar o fato; Williams descreveu todo um modo de olhá-la, e também como se faz para rompê-la e, por que não, animá-la. São dois poemas e atitudes diferentes, e Williams leva a melhor em todos os aspectos – o que não quer dizer que Drummond não seja grande. Um dia escolherei um poema dele para discutir aqui.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com