Falso jornalismo de Pedro Dória & ignorância de Rodrigo Constantino

Mal acordo e recebo de um amigo o link para o texto de Pedro Dória sobre a última exortação apostólica de Bento XVI. Que no texto estejam presentes aquelas opiniões e atitudes que só servem para confirmar o autor entre as famosas “pessoas esclarecidas”, como se cada um quisesse provar que é a nova encarnação de Jean-Jacques Rousseau, não me surpreende; mas nunca deixo de me surpreender com a impropriedade e a falta de informação que vêm exatamente de quem ganha a vida com a função nominal de difundir informações. Não sei se há equivalente brasileiro desta expressão, mas preciso dizer a Pedro Dória: go get your facts straight.

Ao dizer, por exemplo:

Ao partir contra aborto, eutanásia e, principalmente, casamento homossexual, o papa fere em suas causas queridas os setores mais libertários da Igreja.

Não, Pedro. Do ponto de vista do Papa, e do direito canônico, a defesa destas coisas dá excomunhão automática. Portanto estes “setores mais libertários” nem fazem parte da Igreja.

Logo depois, ele diz:

Já sabem que, perante sacerdotes de quase todas as crenças, são pessoas piores.

Se Pedro Dória tivesse se informado um pouquinho, saberia que ao menos a Igreja condena o ato homossexual, e não a pessoa homossexual. Talvez ele pense que, por ser uma pessoa tão esclarecida, basta contentar-se com a impressão que tem das coisas. Jornalismo de primeira qualidade. Não é possível recorrer ao PROCON?

Quando Bento 16 bate nos que casaram pela segunda vez, é diferente. Não está batendo em libertários ou conservadores; bate no fiel comum, pacato. Aí está demonstrando um reacionarismo ímpar. O direito ao divórcio, ao fim de um casamento frustrado, a recomeçar a vida, é não só unânime no mundo ocidental como é tolerado por quase todas as religiões. Está entre as coisas básicas so viver.

É o direito de, tendo errado, levantar a cabeça, seguir em frente, buscar a felicidade. Um direito humano, inalienável.

Um momento de sensibilidade digno da revista Nova. Agora, eu não sabia que para ser “libertário” ou “conservador” você não podia ser “pacato”. Deus sabe o quanto eu não gosto do Leonardo Boff, mas ainda assim tenho dificuldade em imaginar aquele velhinho gordo, barbudo e de sandálias incendiando igrejas ou mesmo gritando pelo meio da rua. Vá aprender português, Pedro Dória. Não tem um dicionário na sua casa?

No mais, mesmo que você não concorde que a Igreja Católica Romana tem mais direito a usar a expressão “mundo ocidental” do que o século, há de convir que a Igreja tem um peso considerável no ocidente. E, se ela discorda do divórcio, não é possível dizer que há unanimidade.

Mas a apoteose de ignorância vem ao final:

Ao negar total e completamente a Revolução Sexual, Sua Santidade se põe ao lado dos movimentos mais conservadores do Islã.

Então, segundo Pedro Dória, temos o Papa dizendo aos católicos que devem viver na monogamia perpétua. Um homem e uma mulher juntos, para a vida toda; ou isso, ou o celibato. Você pode pecar e se confessar, mas aquilo não vai deixar de ser pecado. De outro lado, temos “os setores mais conservadores do Islã”, que defendem não só o divórcio como a poligamia de um homem com até quatro mulheres, e já chegaram a ter um método anticoncepcional, o “coito interrompido” (entre aspas porque “coito” é uma das palavras mais feias da língua), associado a si. Sem contar que o adultério, nos “setores mais conservadores do Islã”, pode ser punido com o apedrejamento público. Se Pedro Dória acha que Bento XVI “se põe ao lado dos setores mais conservadores do Islã”, só posso recomendar que vá estudar um pouquinho, só um pouquinho, porque os jornalistas não têm um juramento de Hipócrates como os médicos, mas a ética mais fundamental, ou simplesmente o bom senso, sugere não falar sobre aquilo que se desconhece. Go get your facts straight, ou então pratique o seu amado divórcio com a sua profissão nominal de jornalista, porque os dois sairiam ganhando.

Agora, os comentadores do texto de Pedro Dória levantaram uma questão interessante, que ele, também nos comentários, preferiu desprezar: a tradução do italiano piaga por “praga”, o que também houve no espanhol (plaga), quando, segundo um deles, o melhor seria “chaga”, o que é confirmado pelo dicionário Garzanti. Nas demais línguas, segundo o site do Vaticano, a palavra escolhida sempre tem ao menos alguma ambigüidade, podendo ser interpretada como “praga” ou “chaga”. Em inglês tivemos scourge, que eu traduziria como “flagelo”, até porque este é o sentido original da palavra: scourge é um flagelo, uma espécie de chicote, o mesmo que foi usado em Jesus Cristo antes da crucifixão. Em francês tivemos plaie, que tem o mesmo sentido italiano. Em alemão – preciso dizer que meu alemão se resume a possíveis conversas com garçons, mas isso não me impede de ir a dicionários – temos Plage, que aparentemente pode ser traduzido como “praga”, mas também como “flagelo, chaga”. A questão é que em português a palavra “praga” está muito ligada a um contexto de agricultura; se falamos, em termos sociais, de algo que é uma “praga”, referimos algo como uma música incômoda presente em toda parte. Se queremos referir algo mais profundo, usamos a palavra “peste”.

Fosse eu jornalista, e tivesse acabado de escrever a respeito do assunto, só me recusaria a investigar a má tradução se realmente não tivesse o compromisso de informar, mas apenas o de falar mal do Papa. E como não sou, posso me dar ao luxo de pesquisar um pouco e dizer aos leitores de O Indivíduo que, segundo Sandro Magister, o Papa já teve problemas com tradutores:

Nem mesmo Bento XVI conseguiu segurar uma manifestação pública de decepção com o mau funcionamento do sistema de traduções [do Vaticano]. Na quarta-feira, 18 de janeiro, ao anunciar aos fiéis que sua primeira encíclica seria publicada no dia 25 de janeiro próximo, deixou escapar: “finalmente”. Também lamentou que “algum tempo tenha se passado até o texto estar pronto e traduzido”.

Além da lentidão, aparentemente Bento XVI não gostou de algumas traduções da encíclica, que corrigiu pessoalmente.

O site de Sandro Magister, agora disponível em quatro línguas, é obrigatório para jornalistas que se metem a falar de Igreja. Mas, aparentemente, Pedro Dória só é jornalista segundo o Ministério do Trabalho.

Agora que cheguei até aqui, vou fazer um pouco como o General Patton gostaria e ir adiante, comentando brevemente, que tenho mais o que fazer, algumas bobagens de Rodrigo Constantino.

Primeiro, referindo-se aos crentes, diz:

“Não conseguem entender simplesmente que ser bom é bom.”

Eu gostaria muito, mas muito mesmo, de ler uma fundamentação do Rodrigo Constantino para esta frase. Talvez ele até se torne um neoplatônico no meio do caminho – se, é claro, ler o que for necessário para isso. Porém, sua falta de leitura do que é necessário é que é meu tema. Não preciso comentar sua escolha de Voltaire como autoridade sobre o Cristianismo; é mais ou menos como citar o Radamanto para discutir a heresia ariana. Mas vamos adiante:

Ou seja, usam algo humano [a razão], fora da tal ‘revelação divina’, para filtrar o que deve e o que não deve ser seguido. No meu dicionário, isso se chama hipocrisia.

No meu dicionário, isso se chama ignorância. Primeiro porque as alianças de Deus com o povo judeu foram sucessivas; segundo porque a nova aliança, o Cristianismo, é em termos de normas uma superação do judaísmo. Se Rodrigo Constantino algum dia ler os Evangelhos, vai ver que Cristo diz: “Bem, as escrituras dizem tal coisa, mas eu digo outra coisa.” De cabeça, lembro do exemplo do animal que cai no poço durante o sábado e da defesa da mulher apedrejada.

A escravidão conviveu lado a lado com a Igreja por séculos, e apenas o Iluminismo, tão condenado pelos conservadores, colocou de vez um fim nessa imoralidade.

Não faltam autores que digam que uma das razões para o sucesso do Cristianismo estava justamente na sua defesa do fim da escravidão no Império Romano. No mais, supor que a Igreja sempre foi conivente com a escravidão das Américas é um erro grave: ao menos o Papa Paulo III – uma instância considerável, digamos – a condenou severamente, e isto já em 1537. O primeiro bispo do Brasil era negro, filho do rei do Congo. Agora, dizer que foi o Iluminismo que acabou com a escravidão é hilariante: William Wilberforce, principal motor do movimento abolicionista na Inglaterra, país-chave para o fim da escravatura, só abraçou a causa depois de passar por uma conversão, em que trocou sua indiferença pelo desejo de dedicar a vida a Deus.

O mais engraçado, porém, foi ler um texto inteiro criticando a infalibilidade papal sem fazer uma única referência às poucas linhas do pequeno documento (o quarto capítulo da constituição Pastor Aeternus, do Concílio Vaticano I) que estabelece este dogma, que se refere a uma capacidade tão restrita quanto especial do Papa de realizar julgamentos infalíveis apenas em matérias de fé e moral segundo uma determinada fórmula.

Se Pedro Dória e Rodrigo Constantino tivessem sido educados em casa, talvez não falassem tanta besteira. De todo modo, os dois servem como exemplo do prodigioso fracasso do Ministério da Educação.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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