Dois poemas: niilismo e ambigüidade

Soneto inglês nº 2
Manuel Bandeira

Aceitar o castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.

Monólogo
Dante Milano

Estar atento diante do ignorado,
reconhecer-se no desconhecido,
olhar o mundo, o espaço iluminado,
e compreender o que não tem sentido.
Guardar o que não pode ser guardado,
perder o que não pode ser perdido.
— É preciso ser puro, mas cuidado!
É preciso ser livre, mas sentido!
É preciso paciência, e que impaciência!
É preciso pensar, ou esquecer,
e conter a violência, com prudência,
qual desarmada vítima ao querer
vingar-se, sim, vingar-se da existência,
e, misteriosamente, não poder.

Duração: 2m59s
[audio:bandeiramilano.mp3]

Não é incomum que alguns poetas, de todas as estaturas, coloquem-se sempre diante da mesma questão, e reequacionem os novos dados que vão se apresentando à sua frente nos termos dela. Camões sempre retorna ao problema da descontinuidade entre a ordem das coisas inteligíveis e a desordem da experiência: é o “desconcerto do mundo” que faz com que os bons fracassem e os maus prosperem. Bruno Tolentino, com seu “mundo como idéia”, sempre fala da tentação de não aceitar tanto a fugacidade do instante em que as coisas são mais inteligíveis como a mortalidade da beleza e refugiar-se em abstrações. Fernando Pessoa sempre reafirma que refletir sobre a experiência é infinitamente menos intenso do que simplesmente ter experiências, como se pensar não fosse propriamente um aspecto do ser, e o fato de ele ter escrito tantos poemas, que são ao mesmo tempo fonte de reflexão e de experiência estética, fornece mais uma prova de quanto isso o incomodava. Paulo Henriques Britto, aceitando tranqüilamente um mundo que se encerra em sua materialidade, questiona-se sobre o ato de falar e de escrever poesia. Muitas vezes você tem a impressão de que eles – talvez com a exceção de Camões – passam boa parte do tempo tentando escrever um mesmo poema. Mas é possível que a melhor parte de sua obra, os poemas de que você se recorda mais vezes, e recita para si como quem cantarola uma de suas músicas favoritas, seja justamente a parte mais relaxada, escrita sem a pressão da obsessão.


Dante Milano

Certos temas e atitudes também são comuns a mais de um poeta. Se isso não existisse, não seria possível falar de estilos de época – embora eu abomine a presunção evolutiva que há no estudo da literatura por estilos de época no Brasil, sempre dando a entender que o modernismo é uma espécie de ápice e depois há só o “pós-modernismo”, ou nós, aqueles que não tiveram a sorte de estar lá. Esta presunção é insana porque não se pode dizer que após Augusto dos Anjos, Cruz e Sousa, Machado de Assis, Lima Barreto etc. a literatura brasileira estivesse precisando das vanguardas européias para viver bem, e isso sem nem lembrar que algumas delas, como o futurismo de Marinetti, eram piadas em que os intelectuais paulistas entraram como personagens.

Uma das atitudes comuns em excelentes poetas brasileiros do século XX é uma espécie de ateísmo, ou anti-transcendentalismo, ou até mesmo um niilismo, que aparece por exemplo no Soneto Inglês no 2 de Bandeira. Mas este poema parece antes indicar a sensação que muitas pessoas aparentemente passaram a ter, no meio do século XX, de que havia alguma espécie de beleza estável, baseada numa ordem transcendente, que tinha acabado. Bandeira deseja “um novo santo, / sem fé num mundo além do mundo”, isto é, quer uma nova beleza, que lhe pareça mais espontânea mas não necessariamente menos grave.

A atitude de Dante Milano parece ir mais adiante. Se Bandeira fala em “santo”, está se reportando a uma história católica e uma idéia estabelecida de santidade, e definindo, muito a contragosto, o novo com os termos do velho. Já Dante Milano refugia-se inteiramente na experiência individual, sem se ocupar de temas (que me parecem tão ociosos, para dizer a verdade) como o novo mundo que surgirá com suas novas belezas. O que interessa é saber onde está a justeza da sua atitude particular diante de um problema perene. Ambos poderiam esbanjar erudição e falar de sutilíssimas heresias medievais ou usar personagens imaginários para tratar de temas perfeitamente acessíveis; ou poderiam simplesmente falar diretamente deles, em linguagem também perfeitamente acessível.

Além da linguagem direta, e da ausência de referências a idéias, Bandeira e Milano usam a mesma surpresa em seus poemas, que iniciam com atitudes altivas e terminam com palavras de niilismo. Milano chega a mesmo a dizer: “É preciso ser puro, mas cuidado!”, o que é uma bela exortação: eu e você conhecemos pessoas que ficaram ao menos um pouquinho malucas em sua busca pela pureza. A exortação fica ainda melhor com “É preciso ser livre, mas sentido!”, em que, com a compressão própria da poesia, faz-se a distinção perfeita entre liberdade e aleatoriedade. A palavra “sentido” também termina um verso anterior do mesmo poema, e quando a lemos, antes de chegar aqui, entendemos que Milano se refere a uma ausência de sentido presente no mundo exterior ao sujeito, sugerindo pelo paradoxo que este, pelo ato da sua compreensão, é que vai ordená-lo. Na segunda ocorrência, a palavra confirma que o sujeito é que vai dar sentido às coisas, pelo bom uso da sua liberdade. E o melhor uso que ela pode ter, segundo o poema, é conter a violência que nasce da experiência da falta de sentido da existência e do desejo de vingar-se: afinal, como poderia um ser tão capaz de atitudes tão altivas, de dar sentido às coisas, ser obrigado a “reconhecer-se no desconhecido”?

Antologia de Manuel Bandeira

A surpresa final de Bandeira é análoga. Após recusar tudo e pedir algo novo, vem a admissão de que a “a vida / não vale a pena e a dor de ser vivida”. Naturalmente é tentador perguntar: “que vida?” Certamente a vida “sem fé num mundo além do mundo”, se for cheia de pena e dor, não vale a pena. Vamos esquecer as complicações de ordem métrica e pensar apenas no que está sendo dito. Se Bandeira tivesse escrito “a vida assim”, teria se desidentificado do poema e condenado o que disse anteriormente. Ao dizer “a vida”, só com o artigo, deixa uma ambigüidade. Seria a vida em geral, ou a vida segundo a atitude descrita no poema? Nesta pequena ambigüidade está a diferença entre um poema panfletário contra o niilismo e um poema misterioso, interessante. Se você quiser um Bandeira católico, fica com a versão panfletária; se quiser um Bandeira niilista, com a versão niilista; e se entender que Bandeira provavelmente só queria escrever um poema interessante, vai saber ler e usar o poema de maneira mais condizente com sua natureza. Não é que eu condene de antemão a literatura que tenha uma ideologia clara; é que eu acho que, se Bandeira (ou qualquer escritor) realmente quisesse, escreveria sem ambigüidades – como aliás fez em seu soneto em louvor ao Papa Paulo VI (leia-o, inteiro, mais para o fim desta página), que termina dizendo nada menos que:

Falai, falai, que ouvir a vossa isenta
Palavra é ouvir em meio da tormenta
A voz de Deus na voz de um grande Papa.

A questão da clareza, por fim, nada tem a ver com a ambigüidade. É claro que existe uma ambigüidade, é claro que ela é proposital, e são claríssimas as duas possibilidades de interpretação.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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