Liberals e “liberais”; conservatives e “conservadores”

Começo a reunir meus textos sobre literatura em meu site profissional, pedrosette.com. Este texto foi escrito pensando nele.

Quem acompanha as discussões políticas americanas sabe que nos EUA a palavra liberal não é exatamente o que os brasileiros chamam de “liberal”. E seu sentido, tanto no Brasil como nos EUA, depende muito de quem está falando e um pouco menos de com quem se está falando.

Em termos puramente políticos, liberal pode significar o seguinte:

  1. Uma pessoa que acha que cabe ao governo reformar e guiar a sociedade.
  2. Uma pessoa que deseja que o governo promova políticas habitualmente consideradas de esquerda, como o casamento gay.
  3. Uma pessoa que, em sua vida privada, não aja segundo a moral tradicional.

Se você falar em classical liberalism, está se refererindo às idéias de Tocqueville e Burke, por exemplo, o que não tem nada a ver com as opções acima. Trata-se exatamente daquilo que em português é designado por “liberalismo clássico”.

Já no Brasil, se você falar em “liberal”, pode estar referindo as seguintes coisas:

  1. Uma pessoa que deseja o mínimo de intervenção do governo na economia (os brasileiros ainda não concebem que intervenção do governo em outras esferas possa ser igualmente indesejável).
  2. Num contexto especificamente católico e conservador, “liberal” também pode referir as pessoas que desafiam a autoridade da Igreja e, por extensão, qualquer autoridade. Na Inglaterra, com certeza até o século XIX, a palavra liberal tinha o mesmo sentido, além de ser usada como eufemismo para indicar pessoas consideradas excêntricas e esquisitas. O mesmo, aliás, vale para free-thinker, que também pode ser um eufemismo para “maçom”.

Não é difícil ver que, excetuando o contexto muito restrito do conservadorismo católico, a área de interseção dos termos liberal e “liberal” é muito pequena. Como encontrar uma equivalência?

Nos EUA, liberals estão sempre contra conservatives. Mas um conservative americano não é igual a um “conservador” brasileiro. O fato de a política americana ser muito mais matizada ideologicamente do que a nossa cria uma série de problemas.

Um conservative americano pode ser:

  1. Uma pessoa que defende a pouca intervenção do governo na vida doméstica (quanto à política internacional, não parece haver unidade entre liberals e conservatives).
  2. Uma pessoa que age segundo a moral tradicional e defende que o aparato estatal seja usado para protegê-la.
  3. Se a pessoa se denomina free-market conservative, quer dizer apenas que defende idéias clássicas em favor do livre-mercado.
  4. Também é comum que alguém se diga politically conservative, o que normalmente significa que a pessoa está apenas dizendo que defende um governo pequeno e pouco intrusivo, deixando claro que não necessariamente apóia moralismos.

Já no Brasil a palavra “conservador” quase só tem conotações negativas: logo imaginamos alguém reprimido que deseja oprimir as pessoas de algum modo. Ela não parece corresponder a um conteúdo claro, explícito. Acontece com ela algo semelhante ao que acontece com a palavra “fascista”, que só serve para indicar tudo aquilo que o falante acha desagradável.

Pensando em todos estes contextos, fica claro que é preciso perceber qual é a ênfase no uso da palavra liberal ou conservative para escolher a melhor tradução. Assim:

  1. Em economia, um conservative é um “liberal”. Um free-market conservative é com toda certeza um “liberal”.
  2. Um conservative pode ser um “conservador” se o contexto se referir claramente a questões morais e ao uso do poder público para defender posições moralistas. Aqui o conservador também pode ser chamado “de direita”.
  3. Se um liberal está propondo o uso do governo para a promoção de causas de esquerda, pode ser um “progressista”, ou até simplesmente um “esquerdista”, “alguém de esquerda”.
  4. Apenas os religiosos católicos mais conservadores entenderão o uso da palavra portuguesa “liberal” no sentido de “alguém que não age segundo a moral tradicional” (embora o uso resista na expressão “pais liberais”), portanto mesmo no contexto de um debate moral eu preferiria traduzir liberal como “progressista”.

É claro que o contexto político americano é inteiramente diverso do brasileiro e muitas nuances podem ser perdidas, mas isso não impedirá a imprensa, nem as editoras, de continuar encomendando traduções de textos políticos. Por isso precisamos de algo melhor do que continuar traduzindo liberal invariavelmente por “liberal” e conservative por “conservador”.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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