Uvi strella

Antes de ler o poema desta semana, leia o famoso soneto de Olavo Bilac inspirado pelo personagem de Quincas Borba, ou não vai entender a piada:

Via láctea, XIII

“Ora (direis), ouvir estrelas! Certo
perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
que, para ouvi-las, muita vez desperto
e abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
a Via Láctea, como um pálio aberto,
cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
que conversas com elas? Que sentido
tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
pois só quem ama pode ter ouvido
capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Uvi strella
Juó Bananere

Che scuitá strella, né meia strella!
Você stá maluco! e io ti diró intanto,
chi p’ra iscuitalas montas veiz livanto,
i vô dá una spiada na gianella.

I passo as notte acunversáno c’oella,
inguanto cha as otra lá d’un canto
st’o mi spiano. I o sol como um briglianto
nasce. Ogliu p’ru céu: Cadê strella?!

Direis intó: O’ migno inlustre amigo!
o chi é chi as strellas ti dizia
quano illas viéro acunversá contigo?

E io ti diró: Studi p’ra intendela,
pois só chi giá studô Astrolomia,
é capaiz di intendê istas strella.

Duração: 1m54s
[audio:uvistrella.mp3]

Ainda que eu tenha planejado só tratar aqui de poemas escritos em português, não posso dizer que o poema de hoje, ainda que perfeitamente inteligível, esteja naquilo que habitualmente chamamos de português. Foi escrito numa emulação da peculiar interpretação da nossa língua feita pelos imigrantes italianos em São Paulo no começo do século XX, ou algo próximo do mesmo dialeto em que falam os personagens das “novelas italianas” da Rede Globo, por Alexandre Marcondes Machado, que usava o pseudônimo de Juó Bananere, e faz parte da coletânea La divina increnca, só encontrável em sebos (eu mesmo jamais tive o livro em mãos).

Há quem considere que poemas humorísticos e paródias sejam um gênero menor. Bobagem: se você escreve uma piada que continua engraçada após décadas ou mesmo séculos, há nisto um mérito tremendo. Agora, para alguma coisa ser engraçada, é preciso que tenhamos um entendimento imediato dela – qualquer um sabe que a piada explicada perde a graça. Pode ser que pouca gente conheça o poema de Olavo Bilac que foi parodiado (ainda que ele seja um clássico dos livros didáticos, e um poema excelente, na minha opinião), mas este problema é do leitor e não do autor. Não vejo nada de errado neste “elitismo”: a idéia de que toda diversão deveria ser adequada aos espectadores do Big Brother é o ápice do filistinismo, e muitas vezes sinto vontade de definir a famosa modernidade como a época em que passaram a acreditar que tudo que escapa do entendimento de qualquer idiota não tem direito de existir.

Uma das maiores virtudes do texto de Bananere não está exatamente em ser capaz de emular na escrita os dados fonéticos de uma fala tão específica, mas em conseguir reproduzir perfeitamente o tom desta fala, e quase os gestos de quem fala. Poucas vezes, ao ler um poema, captamos imediatamente seu tom; algumas vezes, é bom que o tom seja difícil de captar, permitindo interpretações. No sensacional filme Wit (que no Brasil tem o ridículo nome de Uma lição de vida, e que ganharia muito se se chamasse Espírito, pois um dia usamos essa palavra com o sentido de wit, exatamente como o francês esprit), Emma Thompson é uma professora de literatura que discute com sua orientadora o tom de um verso de John Donne, e como a interpretação do poema depende dele. Aqui não estamos falando de nada tão profundo, mas de algo que precisa ter impacto imediato para funcionar, e realmente funciona: eu mesmo sou transportado imediatamente para o ambiente de Anarquistas, graças a Deus (que li no início da adolescência) e vejo dois italianos, cada qual com seus suspensórios, discutindo.

Se formos falar em termos de “língua portuguesa”, não sei se podemos incluir Juó Bananere no cânon, mas acredito que sim – afinal, a variação da língua em geral é muito grande e a esquisitice particular de sua escrita só emula um sotaque. Ele não é estudado nas escolas, mas acho que muitos alunos se divertiriam com as paródias de Olavo Bilac e de Camões. Também não o vejo mencionado nas universidades, e não entendo a razão, mas suspeito que tenha a ver com o hegelianismo subjacente: a visão de “estilos de época” permanece, ainda que mais sofisticada, tendo o modernismo como ápice. Bananere é formalmente castíssimo, e supostamente heterodoxo só no uso da linguagem; é engraçado sem afetar irreverência – é claro que ele ama os poemas que parodia, assim como o meio cuja dicção utiliza; e não parece ter um grande interesse em esconder uma crítica profunda por trás de seu humor. No entanto, como eu disse, é imediatamente engraçado, 80 anos depois, e se isto não é um grande mérito literário, não sei o que possa ser.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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