Jerusalém libertada

Jerusalém libertada

Este é um trecho do Canto II de Jerusalém libertada, de Torquato Tasso, traduzido por José Ramos Coelho e publicado pela Topbooks. Jerusalém libertada mistura ficção e história para narrar a primeira cruzada para tirar Jerusalém do domínio dos mouros: leia enquanto pode. Neste episódio, o primeiro que me chamou a atenção enquanto eu enfrentava, quase sempre no metrô, as 612 páginas de versos decassílabos, temos o seguinte: o feiticeiro Ismeno convenceu o rei muçulmano de Jerusalém a roubar uma imagem da Virgem Maria de uma igreja, para profaná-la. Durante a noite, a estátua desapareceu. Sofrônia, uma virgem excepcionalmente virtuosa e modesta, assume a culpa publicamente para poupar os cristãos de um massacre. Olindo a ama e também decide assumir a culpa. O resultado é que os dois serão postos na fogueira.

Já a fogueira preparada estava,
e incitavam a chama adormecida,
quando por modo tal se lamentava
Olindo à que com ele foi unida:
“É este o laço pois que eu esperava
que nos ligasse em fortunosa vida?
É este o fogo casto dos amores,
que eu julgava nos desse iguais ardores?

Outro fogo, outros laços nos prepara,
não os de amor promessa, a iníqua sorte.
Tanto nos separou dantes avara!
Tanto, cruel, nos casa hoje na morte!
Ao menos, já que te condena, ó cara,
a tão estranho fim, sou teu consorte,
se não no leito, na fogueira; o fado
teu só choro; feliz morro a teu lado.

Oh! Fora a morte vezes mil ditosa,
e o meu martírio eu por fortuna houvera,
se, juntos peito a peito, a jubilosa
alma nos lábios teus deixar pudera!
E se, morrendo juntos, ó formosa,
teu último suspiro eu recebera!”
Tal chorando se exprime; e respondendo
ela meiga o aconselha, e vai dizendo:

“Outro pensar, amigo, outros lamentos
a ocasião mais elevados pede.
Põe nos pecados teus os pensamentos,
e no prêmio que Deus aos bons concede;
sofre em Seu nome; e doces os tormentos
serão; aspira à sempiterna sede;
olha o céu como é belo; o sol que é vida,
que nos consola e à glória nos convida.”

Nos olhos do infiel borbulha o pranto;
chora o cristão; porém a voz comprime;
um desusado, não sabido encanto
até mesmo no rei brandura imprime.
De o conhecer se indigna; arreda entanto
o olhar; mas teima em lhe assacar o crime.
Tu somente, de todos pranteada,
não pranteias, Sofrônia, conformada.

Leitura e comentário: 2m40s
[audio:jerusalem.mp3]

A meu ver, sempre que se busca alguma excelência no uso da palavra, temos um ato literário – e daí decorre que eu ache que, assim como botar um mictório num museu pode denotar uma atitude sobre a arte mas não é uma obra de arte, simplesmente dizer que algo é poesia não é suficiente para que seja.

O ato literário, num certo sentido, pode ser realizado até mesmo pelo leitor que se dedica a reconstituir na própria alma algo dos livros que lê: “transforma-se o amador na coisa amada, por virtude do muito imaginar”. Por isso, uma literatura não é feita só de autores, mas também de leitores, entre os quais estão os críticos e os tradutores – que são talvez os mais profundos leitores. Se a literatura fosse feita só de autores, seria uma sucessão de palavras lançadas ao vazio ou, na melhor das hipóteses, um clube exclusivo no qual nem mesmo os críticos que lhes selecionam os membros poderiam entrar. Sem os tradutores, muitas obras de outras línguas permaneceriam incógnitas a muitos críticos, autores e puros leitores. Quantos podem dizer que leram uma obra como as Mil e uma noites no original árabe? Isso para não falar de todas as obras da antigüidade grega e latina, bem menos exótica mas também pouco conhecida no original. Na verdade, um tradutor de uma obra clássica pode ter mais impacto sobre a literatura do que qualquer autor moderno.

Francamente, meu italiano ainda não é bom o suficiente para que eu possa ler a Jerusalém libertada de Torquato Tasso sem parar o tempo inteiro. Mas isso não me impediu de ter passado ótimos momentos com a tradução de José Ramos Coelho, feita no século XIX, na edição recente da Topbooks. Você pode dizer que a tradução perde alguma coisa em relação ao original e eu direi que isso é óbvio, e que não impede uma tradução de ser muito boa. Além de julgar o texto pela fidelidade (rítmica, de conteúdo etc.) ao original, podemos julgá-lo pela sua qualidade intrínseca. Diante de centenas e centenas de versos decassílabos, podemos parar de chorar o original perdido e perguntar se estes versos são bons versos portugueses. Claro que são.

Jerusalém libertada foi publicada em italiano em 1580, 8 anos depois dos Lusíadas; logo, a tradição da oitava heróica (este tipo de estrofe de oito versos decassílabos heróicos, com sílaba forte na sexta posição, e rimas ABABABCC) já estava plenamente estabelecida em Portugal. E como a poesia portuguesa deve talvez mais ao italiano do que a qualquer outra língua, pois foi graças à viagem de Sá de Miranda à Itália que os metros do dolce stil nuovo chegaram ao nosso idioma, a intimidade contribui para a tradução.

O trecho selecionado chama a atenção por exaltar muito mais a virtude da jovem Sofrônia do que o amor de Olindo. Enquanto ele mantém os olhos nela, ela olha para a morte e se mantém altiva, tanto que lhe dá uma pequena bronca. Não é um momento palaciano, de vida fácil, e a virtude que ela exibe é até mais tipicamente masculina (idealmente falando, é claro): a coragem. O que faz com que muçulmanos e cristãos chorem não é o amor, o Eros pagão de que os renascentistas tanto gostavam, mas a disposição de Sofrônia em morrer bem. Apesar de o rei “teimar”, também é comovido; e sobretudo pelo fato de o povo muçulmano se comover vemos que Tasso os “humaniza”, que não escreve simplesmente um poema sobre como “nós fomos lá e acabamos com aqueles vermes”. Há outras mostras disto em Jerusalém libertada, como a personagem Clorinda, mas neste trecho já se vê alguma deferência em relação à piedade árabe.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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