Maravilhas detranescas

Hoje agendei a prova de renovação da minha carteira de motorista. Nem comento o fato de eu já ter gasto R$118 (R$76 pela dádiva da habilitação e R$42 pela segunda ida ao oftalmologista em menos de uma semana) para continuar fazendo o que eu já faço perfeitamente. O espírito de que tudo é uma concessão estatal é francamente abominável. Não consigo ver rigorosamente nenhuma razão legítima para o governo querer exercer esse tipo de controle. Quem não sabe dirigir não vai querer dirigir. Quem sabe está sendo limitado no seu direito de ir e vir. Quem causar algum acidente já vai sofrer processos cíveis e criminais. O Detran existe unicamente para intimidar, domesticar, escravizar e sustentar um monte de gente cuja única qualificação é entregar papeizinhos com as instruções dos procedimentos burocráticos – talvez eles não fossem capaz de explicá-los oralmente. O Brasil precisa definitivamente de mais McDonald’s: talvez virar um hambúrguer de um lado para o outro não seja assim tão complicado, e acho que há um excelso valor pedagógico em ser obrigado a prestar um bom serviço. E nada que o governo brasileiro faz está à altura do BigMac.

Nem mesmo na hora de oprimir seu escravo o governo brasileiro consegue agir direito. Enquanto eu esperava que me tirassem uma foto e as impressões digitais (o que é francamente revoltante: se você acha isso normal, saiba que na Índia você não poderia me olhar nos olhos), acabei soltando uma gargalhada por ler o texto sobre o meio ambiente que está na página 18 da cartilha de doutrinação:

Lei da Natureza

A natureza é sábia.

Sábia, abundante e paciente.

Sábia porque traz em si o mistério da vida, da reprodução, da interação perfeita e equilibrada entre seus elementos. Abundante em sua diversidade, em sua riqueza genética, em sua maravilha e em seus encantos. E é paciente. Não conta seus ciclos em horas, minutos e segundos, nem no calendário gregoriano com o qual nos acostumamos a fazer planos, cálculos e contagens.

Alguém precisa explicar ao burocrata redator ou ao burocrata aprovador do texto que a definição de “paciente” não tem nada a ver com usar o calendário gregoriano, juliano ou maia. Além disso, o calendário gregoriano é baseado na natureza; não é um calendário arbitrário. Não preciso provar que “dia” é uma medida natural de tempo, derivada do movimento aparente do Sol. Horas, minutos e segundos são unidades originalmente derivadas do dia: hoje podemos não usar as horas naturais (também 24, mas de extensão variável, já que o dia e a noite só tem a mesma duração nos equinócios). Não é exagero dizer que, do ponto de vista do ser humano, o calendário gregoriano é o calendário mais perfeitamente natural que existe. Portanto, sim, a natureza conta seus ciclos em horas, minutos e segundos.

E nem é possível comentar a breguice fantástica com que vacuidades do senso comum aparecem no início do texto. Sei que o Detran é uma instituição estadual, mas não posso deixar de ver neste clímax de breguice e burrice um sintoma da era lulesca.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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