Por que gostar de um poema?

T. S. Eliot disse em algum de seus ensaios que “só é possível ensinar literatura a quem já tem um gosto formado”, mas não me lembro de ele ter explicado o que seria isso. Como se trata, porém, de algo que antecederia o ensino, só posso imaginar que seria algo como um “gosto com autoconsciência”, isto é, uma capacidade de o sujeito dizer para si mesmo quais são as razões que o levam a gostar de certas obras e a desgostar de outras. E a relação com todas as obras de arte é marcada por uma mistura de fatores objetivos e subjetivos, cada grupo ocupando mais espaço aqui ou ali. Minha relação com a obra poética do próprio Eliot, por exemplo, é marcada muito mais por fatores objetivos: admiro muito sua técnica, sua capacidade de extrair ritmos inusitados (Preludes, todo o Old Possum’s book of practical cats), de emular vozes (The journey of the Magi), mas raramente sou tocado por um de seus poemas. Para falar a verdade, acho que apenas La figlia che piange me emociona diretamente, sem uma intermediação pesada do trabalho intelectual.

Por outro lado, há poetas de que gosto por fatores subjetivos. Estes fatores subjetivos podem, por sua própria natureza, ser muito mais variados do que os objetivos. Isto é, assim como podemos gostar de uma música cafona só porque ela recorda um momento agradável da nossa vida amorosa, podemos gostar de um poeta só porque ele nos disse algo do jeito que precisávamos ouvir, ou porque ele nos lembra de um bom período da vida (minha adolescência for marcada pela leitura de Bandeira; eu sempre gostarei dele, porque me sinto adolescente de novo quando leio certos poemas seus).

Entre os fatores subjetivos, quero destacar um: a semelhança de natureza entre a persona artística do poeta e a pessoa do leitor. Este é o caso em o leitor percebe no poeta um semelhante, um irmão (sem hipocrisia), um guia; é o caso em que o leitor percebe: “se eu fosse um grande poeta, seria como este grande poeta aqui”, e não consigo imaginar um leitor de poesia que nunca tenha pensado isto. Normalmente esta relação se estabelece através das idéias que o poeta expressa: um poema que descreve perfeitamente uma situação da vida do leitor, um verso que corresponde a uma experiência constante do leitor, e também um modo de expressar os conteúdos que é o correspondente poético de um modo de agir, isto é, que corresponde em palavras àquilo que o leitor ou o poeta fariam se fossem homens de ação mais do que de reflexão. Por exemplo, os poemas de Bandeira e Drummond sobre o amor sugerem alguém que, diante da decepção, se resigna e vai para o seu quarto chorar (ou “refletir sobre a condição do homem comum”); já os poemas de Yeats sobre o amor sugerem alguém que, diante da decepção, aceita o soco mas busca um ideal ainda mais alto, ainda que esta busca seja só intelectual.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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