Por que estudar?

Nunca consegui entender o desejo de acumular cultura. Para mim, é a mesma coisa que querer viajar muito e não chegar a lugar nenhum. Entendo que se possa ter inveja dos grandes eruditos, mas imagino que a erudição que eles têm seja uma qualidade adquirida na busca de outra coisa. Ou simplesmente um percurso: para chegar ao Chile, a partir do Rio de Janeiro, preciso cruzar os Andes. Assim, as conversas mais ou menos eruditas que posso ter com amigos são como recordações de viagem: queria entender tal coisa, tive que passar por aquele caminho. Mas existe sempre um destino que ao menos se imagina antes de se conhecer: um conhecimento, uma mudança na própria alma, um refinamento da sensibilidade, e só então o trabalho.

Acho, por exemplo, que existem muitas razões para estudar grego. No meu caso, as razões são tentar não me sentir tão humilhado diante dos meus heróis literários (ou seja, uma questão de auto-estima) e conseguir apreciar a poesia grega. Não simplesmente entender seu significado, mas entender porque aquilo é supostamente tão bom e grandioso. Nos momentos de maior tédio, estudando a sintaxe do particípio ou os verbos atemáticos, tenho que me lembrar que um dia talvez eu consiga ler Homero, Píndaro ou os dramaturgos com alguma fluência para ir em frente.

Na minha adolescência, muito antes de eu querer estudar grego, duas coisas se impunham: certas questões sobre a alma humana (como “de onde vêm nossos desejos?”) e uma atração irresistível pela beleza. Nunca tive o fetiche de ler, mas lia porque não havia outra solução – até entender as coisas que queria ou decorar os poemas. Novas leituras sempre foram precedidas de novas perguntas ou da antecipação de novas possibilidades de prazer estético. Por isso, sempre que me perguntam o que ler, eu digo: leia aquilo que te interessa. Para que estudar estética se você está mais preocupado com política?

Por pura falta de categorias, imagino que todo autodidata seja alguém que se coloca uma questão de modo pessoal e vital. Se é assim, sua formação só tem “lacunas” diante de quem trabalhe na linha de montagem do conhecimento padronizado que é a universidade, mas do ponto de vista do autodidata não há lacuna nenhuma: ele colocou uma questão e parou quando encontrou uma resposta suficiente. Claro que sua investigação pode tê-lo levado em outras direções, ou ele pode ter sentido preguiça no meio e desistido – o que, aliás, também pode acontecer dentro de qualquer universidade.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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