Dois sonetos sentimentais: II

Paulo Henriques Britto
Mínima lírica, p. 82

A surpresa do amor — quando já não se
espera do mundo nada em especial,
e a evidência de que os anos vão se
acumulando sem nenhum sinal
de sentido já não dói nem comove —
quando em matéria de felicidade
não se deseja mais que uns nove
metros quadrados de privacidade
para abrigar os prazeres amenos
do sexo fácil e da literatura
difícil — eis que então, sem mais nem menos,
como quem não quer nada, surge a cura —
definitiva, radical, imensa —
do que nem parecia mais doença.

Duração: 1m40s
[audio:surpresadoamor.mp3]

Pensando comigo mesmo, costumo chamar Paulo Henriques Britto de “o materialista tranqüilo”: afinal, do ateísmo místico de Shelley ao humanismo voluntarista do Bandeira de Soneto Inglês #2, não faltam poetas que sofrem com a necessidade de colocar algo no lugar da transcendência que acabam de negar. Não é o caso de Britto, para quem o materialismo, ou o não-transcendentalismo, é uma verdade tão pacífica e incontroversa que serve até de premissa para piadas como a do segundo poema da série “Três epifanias triviais”, em Macau:

As tais Formas Eternas, as Idéias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompéia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.

Não há desespero, nem exatamente uma resignação, porque resignação é o que se tem diante de um fato terrível; para Britto, a ausência de um além é tão evidente que ele parece ter mesmo apenas tranqüilidade.

Os poemas de seus quatro livros – Liturgia da matéria, Mínima lírica (estes dois, só em sebos e bibliotecas), Trovar claro e Macau – tratam de coisas do cotidiano, do amadurecimento, e, cada vez mais, da própria poesia. Costumo dizer que abomino o gênero de “poemas sobre a poesia” porque prefiro que um poeta exemplifique suas idéias sobre a poesia com um poema, mas Britto aproveita suas peças para ironizar tanto as concepções vulgares sobre a poesia como as teorias literárias da moda e, ainda que isso torne sua obra menos acessível, este problema é do leitor e não do autor.

O poema escolhido para este domingo, o segundo de “Dois sonetos sentimentais”, de Mínima lírica, mostra que a tranqüilidade em relação à não-transcendência não coloca o nome de Paulo Henriques Britto entre os adoradores, apologistas e mistificadores da banalidade que existem na poesia brasileira desde que Manuel Bandeira declarou que seu porquinho da índia foi sua primeira namorada. Aqui a banalidade é um mal, e a resignação com a banalidade uma doença. O amor, que não aparece como uma revelação, que não ganha contornos místicos ou teológicos, é a cura.

A linguagem é coloquial e traz uma série de lugares-comuns que não aparecem nos livros posteriores – “os anos vão se acumulando”, “nada mais que”, “sexo fácil” (este, redimido pelo contraste com “literatura difícil”), “sem mais nem menos”, “como quem não quer nada” – sugerindo que o projeto de aliar rigor formal e fluência pela semelhança com a fala cotidiana (das classes cultas, naturalmente) ainda estava em gestação. O projeto aparece plenamente realizado em Trovar claro, destacando a divertida série de sonetos “Até segunda ordem”, e, como o terreno já esteja conquistado, serve de base até para o uso de uma linguagem mais “poética”, como em “Idílio”.

De todo modo, a linguagem próxima do cotidiano garante a fluência, e quando falo em fluência refiro a ausência de estranhamentos que interrompam a leitura. A fluência pode ser obtida por uma métrica arrumadinha, mas como temos aqui alguns versos fora da fôrma, vemos que a fluência é obtida de outro modo. O segundo verso, “espera do mundo nada em especial”, além de trazer a crase (que ocorre na fala carioca) dos “e” iniciais de “em especial”, resultando em “enspecial”, aposta na proximidade de nasalidades “MuNdo Nada” para suavizar a sílaba forte na inesperada quinta posição. O verso 9, “para abrigar os prazeres amenos” traz uma sílaba forte na sétima posição (que Vasco Graça Moura chama de “solavanco” em um de seus poemas) e a disfarça perfeitamente com a semelhança sonora de “aBRigar os Prazeres”. O décimo, assim como o segundo, parece se alongar para quem o conta sem o ouvido: na fala também fundimos a última sílaba de “fácil” com o “e” que vem logo depois: “do sexo fácil e da literatura difícil”. Leia isto como se fala, não em tom declamatório.

A fusão de lugares comuns, proximidade com a fala, rigor formal (falta de rigor seria deixar aqueles “solavancos” expostos), ausência de mistificação e afirmação tranqüila da realidade imediata é que caracteriza a novidade do poema. Mesmo Bandeira, ainda o mestre da combinação de linguagem coloquial e rigor formal, não resistia e falava, como em O silêncio, que abre O ritmo dissoluto, que a carne da amada está “quase a espiritualizar-se”. Outros poetas que usam a linguagem cotidiana ou desprezam a métrica, ou prostram-se no altar da banalidade, ou os dois.

São estes poemas de Paulo Henriques Britto que acabam dando voz à classe média urbana, culta o suficiente para querer “literatura difícil”, média o suficiente para contentar-se com “nove metros quadrados” e tranqüilamente atéia o suficiente para não se arrepender de “sexo fácil”. Mas isso não significa que ela seja insensível ou burra o suficiente para não entender que a chegada do amor – “definitiva, radical, imensa” – vale mais do que tudo isso.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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