A elegia obsessiva: I

A elegia obsessiva: I
Bruno Tolentino
Anulação & outros reparos (edição definitiva)
Rio de Janeiro: Topbooks, 1998

Embriagado de luz, tão à vontade
no barco de Odisseu quanto o velame,
ouves soprar as flautas de um enxame
que é mera tentação, pura metade

de uma meia-ilusão… Mas não te alarmes,
meu coração, o vento vem mais tarde,
Ítaca vai voltar: Circe e seus charmes
conseguem inebriar a alma covarde,

mas não por muito tempo. Eqüidistante
das coisas todas como a poesia,
o vento leva o ser sempre adiante

malgrado a escuridão e a calmaria;
calma, meu coração: virá o instante
em que te vais somar à ventania…

Leitura e comentário: 2m03s
[audio:elegia.mp3]

Na semana passada vimos o primeiro poema do ciclo de “Ifigênia”, publicado em 1956 por Octavio Mora, que é, se não pai, o irmão mais velho do primeiro poema da “Elegia Obsessiva”, que Bruno Tolentino começou a esboçar (segundo ele mesmo no posfácio da edição definitiva de Anulação) em 1958. Justificar a irmandade vai exigir atenção a detalhes talvez mais técnicos do que o leitor fosse apreciar neste momento, mas é um exercício de análise que, feito uma vez, amplia para sempre as capacidades de leitura.

A primeira semelhança entre os dois poemas é melódica. Comparemos os versos iniciais:

Mora:Como estátua de vento, pedra gasta

Tolentino:Embriagado de luz, tão à vontade

É fácil ouvir a semelhança, mas se quisermos apontá-la temos que dar conta do seguinte:

1. A primeira vogal de cada verso é anasalada pela consoante nasal imediatamente posterior.

2. Na terceira sílaba temos a mesma vogal “a” tónica: “esTÁtua” e “embriaGAdo” (o “ia” do embriagado tem que ser pronunciado como um ditongo).

3. Os dois versos têm um jogo vocálico inicial semelhante. Mora: o-(u)i-á (a vogal final de “como” vai entre parênteses por ser bastante átona em relação às demais vogais; e lembre que falamos “istátua”). Tolentino: e-ia-á. No início, uma vogal média, depois uma alta, depois uma baixa. As duas primeiras vogais são fechadas e a última é aberta. Acrescente a isso a nasalidade inicial e verá de onde vem a sensação de que algo se represa – “Com”/“Em” – , depois se comprime – “is”/“i” – e por fim se solta. Em Tolentino o efeito da compressão é um tanto atenuado por o “i” estar seguindo de um “a” na mesma sílaba, mas como aparece na palavra é “embriagado” o significado pode explicar a estratégia sonora. Vai-se da estátua definida à embriaguez mais indefinida.

4. Os dois versos são heróicos, isto é, têm sílaba forte na sexta posição.

5. Enquanto no verso de Mora há nasalidade na sexta posição – “ven” – , no de Tolentino a nasalidade está apenas próxima, na sétima – “tão”.

6. Há mais um esquema similar nas vogais finais: “pedra gas” e “à vonta”.

Os dois poemas falam em vento e emulam lufadas em seu ritmo: Mora abusa dos dois pontos para não permitir que as frases terminem, mas sejam reforçadas o tempo inteiro, numa verdadeira ventania. Tolentino termina as frases duas vezes com reticências – o vento amaina até acabar-se – , uma vez com ponto final, numa frase que, graças ao uso de sílabas travadas (sílabas terminadas por consoante ou semivogal) também vai se tornando mais vagarosa – “mas não por muito tempo” – e usa duas vezes o ponto e vírgula para obter um efeito similar ao de “Ifigênia”. O segundo uso é interessante porque há a súbita interrupção em “calmaria” seguida do pedido de calma ao coração. Este poderia ser um contraste relativamente banal se não remetesse a idéias fundamentais da poesia de Tolentino, idéias que já discuti em Os falcões. O coração deve se acalmar à espera do vento, que virá; e só será pleno quando se somar a ele. No momento, é preciso resistir aos encantos de Circe, que são os encantos da Idéia, da falsa beleza petrificada – mas não se deve deduzir daí uma semelhança com a “estátua de vento” de Octavio Mora, que está tratando de outro assunto. Como irmãos, os poemas têm semelhanças à primeira vista e grandes diferenças de personalidade.

Não é possível terminar essa breve consideração sobre o poema sem dizer uma pequena palavra sobre a “Ítaca” do sétimo verso. Não sei se Tolentino já havia lido o famoso poema de Kaváfys (no original grego também), mas Ítaca, a pátria a que Ulisses tentou voltar por 10 anos após os 10 anos da guerra de Tróia, normalmente é o símbolo da sabedoria conquistada enquanto se procurava a inocência perdida, ou do retorno a um lugar que permanece enquanto aquele que retorna foi alterado. Nenhum dos dois temas reaparece na “Elegia obsessiva” ou mesmo na obra de Tolentino, dedicada à apologia do belo necessariamente perecível. Também pode parecer estranho dizer que Ítaca vai “voltar” e que “o vento leva o ser sempre adiante”, mas isto parece sugerir o conflito entre os desejos de retorno e de aventuras.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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