Um emprego para Camões

Como na semana passada eu levei para O Insurgente um texto daqui, agora trago para cá um texto do Insurgente.

No século XIX, Almeida Garrett popularizou a tese de que foram as estrofes finais dos Lusíadas, que instavam Dom Sebastião a realizar feitos estupendos ao mesmo tempo que o “profetizava”, que levaram o rei a empreender a batalha de Alcácer.

Pois pensemos o seguinte. Camões chega do Oriente, paupérrimo, com os Lusíadas embaixo do braço. Procura a família de Vasco da Gama, que o deixa, com o perdão do trocadilho infame e irresistível, a ver navios. Então fica implorando uma tença do rei. Esta necessidade de uma tença há de ter, digamos, “inspirado” ao menos parcialmente aquelas estrofes. E por não ter obtido dinheiro nem dos Gama e ter demorado a recebê-lo da coroa, inspirou Dom Sebastião ao desastre.

É certo que havia a peste em Lisboa e as coisas estavam difíceis. Mas suponhamos que Camões tivesse algum espírito capitalista e pensasse: “A família do Vasco da Gama não me pediu para escrever nada e não tem nenhuma obrigação comigo. Sofri uma pena injusta de degredo, é verdade, mas sou um homem capaz e posso arrumar um emprego qualquer para sustentar a mim e à minha mãe, ainda que modestamente. A poesia eu escrevo quando quero. E basta.”

Pois se Camões tivesse, então, tentado arrumar um emprego, talvez não tivesse havido o Alcácer.

Eu sei que é uma hipótese repleta de imaginação, mas acho que tem lá seu simbolismo.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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