Ifigênia

Octavio Mora. Ausência viva.
Rio de Janeiro: Livraria São José, 1956

Como estátua de vento, pedra gasta,
sopra Ifigênia sempre na memória,
e estamos nela sem escapatória
como o tempo nas pedras: só se afasta
(devido à semelhança com o vento
de seu todo), para estar em nós, aérea,
desprovida de contornos, em matéria
capaz de dar volume ao pensamento
que surge do que some: quando volta
volta cheia de pássaros e tudo
se lhe gruda ao olhar: reminiscência
de seus passos, o pássaro se solta
e em nós gravita a terra: conteúdo
e volume final de sua ausência.

Duração: 1m44s
[audio:ifigenia.mp3]

Certas definições de poesia mais parecem concepções de poesia. Ezra Pound dizia que “poesia é a linguagem carregada de significado”, uma definição simples e elegante que, cientificamente, não vale nada: é fácil ver que ela nem distingue entre verso e prosa. E, como lição para os adoradores de Pound, não custa observar que ele mesmo, apesar de definir assim a poesia, dizia que havia três tipos dela: fanopaica, centrada na imagem, com destaque para a poesia escrita ideogramática oriental; melopaica, centrada no som, no ritmo etc.; e, finalmente, a logopaica, centrada no significado. Que ele defina e poesia pela densidade do significado e também diga que só um dos três tipos de poesia depende do significado é só a primeira das muitas maluquices de um crítico que, de todo modo, deve ser lido: aqui e ali há mesmo observações geniais.

Mas é verdade que – sabe-se lá a razão – ao ler qualquer poema estamos mais abertos à linguagem carregada de significado, isto é, a uma linguagem em que as palavras podem ter muitos significados simultâneos, do que quando lemos prosa. E, se muitos dos melhores poemas que temos podem ser considerados engenhosas combinações de métrica e retórica (trarei exemplos no futuro), outros não só trazem a multiplicidade simultânea de significados como dispensam-se a si mesmos de associar-se obrigatoriamente a um deles.

O exemplo disto, o poema de hoje, é o primeiro do ciclo de “Ifigênia”, que abre Ausência viva, a estréia de Octavio Mora, que ainda há de ser considerado o livro mais injustiçado do Brasil, há 50 anos em edição única e difícil de achar em sebos. Já publiquei outro poema do livro.

Uma informação. Ifigênia é a filha sacrificada do rei Agamêmnon, aquela que a deusa Ártemis pediu para compensar o gamo assassinado na ilha de Áulis, e que a motivou a impedir os ventos de soprar. Sem o sacrifício da filha, Agamêmnon não teria vento para levar as naus dos guerreiros à Tróia. O sacrifício de Ifigênia é parte da causa eficiente da guerra.

O verso inicial começa com um paradoxo: a “estátua de vento”, sugerindo uma imobilidade dentro da mobilidade. A “pedra gasta” parece ter sido gasta pelo vento, e é antes um acréscimo à idéia de Ifigênia do que uma explicação da “estátua de vento”. Ela “sopra na memória”, e aí já se confirma a analogia histórica entre vento e “espírito” ou pensamento (pneuma). O tempo está nas pedras porque elas simbolizam a duração, mas também porque a existência da memória pressupõe a duração. Se ela aparentemente desaparece, está por toda parte; e, se volta, fixa tudo nela mesma – “tudo se lhe gruda ao olhar”. E se ela está mesmo ausente, só resta a terra, porque sem o sacrifício de Ifigênia os gregos ficariam presos para sempre na ilha de Áulis. Ao mesmo tempo ela é a personagem Ifigênia, a possibilidade de navegar, e até o remorso que alguém há de ter sentido por seu sacrifício, já que está presente o tempo todo, como uma pedra gasta, dominando o espaço da memória, acoplando-se à paisagem interior, produzindo neuroses, sentimentos. Quando Ifigênia, a causa do mal-estar, retorna, só se pode olhar para ela, e é irresistível associar o remorso pela morte de Ifigênia com as palavras do velho do Restelo: a “glória de mandar”, a “vã cobiça” também estavam presentes nos gregos, e o sacrifício da filha levou à morte de Agamêmnon (pelas mãos de sua esposa) como a hybris portuguesa levou à destruição do império.

Na semana que vem, vamos ver um poema que é “irmão” deste.

ausenciaviva.jpg

(Uma foto ruim tirada com um celular por uma pessoa sem qualquer habilidade fotográfica, a saber, Pedro Sette Câmara)

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

2 comentários em “Ifigênia”

Os comentários estão encerrados.