O cancioneiro de Sebastian Arrurruz

Por Geoffrey Hill. Tradução de Pedro Sette Câmara.

Sebastian Arrurruz: 1868-1922

I

Dez anos separados. Que fazer?
Os dias seguem sua marcha, uma rotina
que, clemente, não chega a interessar ninguém.

Como um disciplinado estudioso,
junto os caquinhos, além da conjetura,
perfazendo seqüências de dor pura;

e é justo dar valor à habilidade
fria, assim como às coisas consertadas:
os adeuses que tanto ensaiei e esqueci.

COPLAS

i

“Ninguém perde o que nunca possuiu”.
Que se dane esta pérola sublime.
Eu perco o que eu quiser. Eu quero a ti.

ii

Ah, meu amor, eu te lamentarei
pelo resto da vida em melodias
bastante parecidas, meu amor.

iii

Meio zombando da meia-verdade,
noto “como é fugaz o amor carnal”;.
Até um negócio assim mexe comigo.

iv

É para ele que escrevo, é com ela que falo
em contido silêncio. Será que os tocará
a paixão que jamais lhes foi familiar?

3

O que outros homens e mulheres fazem juntos
eu não acho que seja orgia ou sacramento
e tampouco uma língua sincera e estrangeira

mas simplesmente a chance, a possibilidade
remota de que surjas dizendo o meu nome
como eu já digo o teu sempre que negocio

com os múltiplos deuses do sono, tentando
obter o máximo que posso: outros cenários,
os sonhos em que eu sempre posso te encontrar.

4

Fantasia viável. Irritante, a velha
tristeza encena seu retorno, transmutada
e semi-preciosa. Um âmbar fortuito.
Como se compensasse a nossa privação.
Vê como brilham os caquinhos quando, ao fim,
os reviramos sob a luz do pensamento.

5

Oh, meu amor, ela virá
com certeza. Uma tempestade
rumina sobre a terra seca o dia inteiro.
Quando ela cai, à noite, as persianas se sacodem.

A metáfora agüenta, aconchegante
como um chalé. Estás lá fora, não sei onde.
Então devoro versos de paixão bizarra
e exílio, as palavras exatas mordidas

pela absoluta fome que eu tenho de ti.

POSES

Imagino, como imagino a nós
cada vez mais estilizados, mais
maravilhosamente detalhados,
que eu não sou mais eu, mas um outro alguém
que eu poderia ser: assexuado,
saboreando, pleno de indulgência,
provavelmente as poses estudadas
de Santo Antônio ou São Jerônimo, aqueles
sonhos hermafroditas tão pacíficos
pelos quais os excessos da memória
poderiam guardar sua abstinência.

DO LATIM

Teríamos assunto, mas também silêncio
que se alimentaria da nossa luxúria,
banalidades renovadas; coisas do dia;
na madrugada, minha língua em tua fenda.

Sem ti, zombam de mim as cortesias, todas
as conversas supostamente interessantes
a que mulheres satisfeitas e zelosas
submetem os convivas menos desejados.

UMA CARTA DA ARMÊNIA

Remotamente, então, no seu lado do mundo:
o maduro espoucar das glândulas, ciprestes
tremendo de calor (que nós também sentimos,
do nosso jeito) Minha mente então se volta
para a pilhagem delicada, a procedência
de caquinhos opacos e brilhantes, três
das espécies de grãos que restaram. Hesito
entre os desastres casuais. Observo
os que morreram de verdade.

UMA CANÇÃO DA ARMÊNIA

Folhas quase cor de prata que são a neve
do Ararat vista através das mesmas folhas.
O sol derrama uma folhagem de sombra.

Uma bica de fonte se projeta um pouco
para fora da pedra-bebedouro.
Uma velhinha chupa, apoiada na borda.

Por que, até agora, tenho que lembrar
da tua boca, da tua mão me percorrendo
como um lagarto, como um jato de água?

À ESPOSA DELE

Às vezes te aventuravas –
como estivesses na casa de alguém –
não íntimo, mas uma conhecida
a ostentar seus pequenos direitos; ou como
alguém gratuitamente apiedada
de amantes novos em justos deleites
quando os convivas todos já se foram.

II

Balbuciando: freqüentemente, não passa
de uma frieza entre vizinhos. Freqüentemente
há uma orgia de sono. Acordo e afago
a compostura com palavras inesperadas,
e desfruto a abstinência numa vocação
de desespero agora quase sem sentido.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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