Lágrimas

Lachrimae Amantis
(Geoffrey Hill)

What is there in my heart that you should sue
So fiercely for its love? What kind of care
Brings you as though a stranger to my door
Through the long night and in the icy dew

Seeking the heart that will not harbor you,
That keeps itself religiously secure?
At this dark solstice filled with frost and fire
Your passion’s ancient wounds must bleed anew.

So many nights the angel of my house
Has fed such urgent comfort through a dream,
Whispered, ‘your lord is coming, he is close’

That I have drowsed half-faithful for a time
Bathed in pure tones of promise and remorse:
‘Tomorrow I shall wake to welcome him.’

Lágrimas
(Pedro Sette Câmara)

Que tem meu coração que tanto o queres?
Como um estranho à porta, por que insistes,
depois de atravessar a noite escura
atrás do coração que te recusa,

religiosamente resguardado?
Neste negro solstício congelado
em puro incêndio, as velhas cicatrizes
da tua paixão sangram novamente.

Por tantas noites, o anjo desta casa
em sonho sussurrou o meu alívio –
“Teu Senhor vem, já chega” – que eu fiquei

boiando em minhas vãs promessas, meus
remorsos – “Amanhã direi bom-dia.”
Mas, de manhã, a mesma ladainha…

Tempo total: 1m49s
[audio:lachrimae.mp3]

Continuando o tema da mensagem de Natal de ontem, trago um poema que postei no Indivíduo, a minha tradução livre da tradução livre de Geoffrey Hill de um poema de Lope de Vega. Desta vez vou ficar apenas com meu texto e o de Hill, ressaltando alguns aspectos.

O segundo quarteto do poema de Hill é o mais distante de Lope de Vega, e traz o verso “at this dark soltice filled with frost and fire”, que até “frost” é literal: trata-se do solstício de inverno no hemisfério norte, que em tempos antigos (antes dos ajustes do calendário gregoriano) caía até no dia 25 – daí que o Natal seja na primeira hora de 25 de dezembro. O solstício de inverno é o dia em que o Sol atinge o ponto mais baixo no horizonte, e portanto só pode subir. É também o dia mais curto e portanto mais escuro do ano, e é também gelado, daí o “dark solstice filled with frost”. Mas e o “fire”, de onde vem? Se o morador não recebe Jesus que bate, o fogo há de ser do inferno, o que é confirmando pelas feridas da paixão, que voltam a sangrar (“your passion’s ancient wounds must bleed anew”. Só que mesmo o frio e a escuridão já sugerem uma imagem infernal – Dante fez um inferno gelado e a escuridão também nos remete para lá. Eis o que é um bom verso: dois sentidos simultâneos, um completando o outro, sugerindo que o conectivo final “and” seja lido também não só como um acréscimo, mas uma conclusão: um negro solstício que, na verdade, é infernal.

O poema não chega a ser uma paráfrase da parábola em que Jesus recomenda a vigilância, porque na parábola as noivas não sabem quando o Senhor vai aparecer; trata-se antes de tomar aquela idéia e acrescentar outra: o Senhor já veio, ele bate, e quando você vai recebê-lo? Por isso a questão não é de se converter, mas de dar um passo a mais na adesão: afinal, você já admite que o Senhor é o Senhor, e está apenas procrastinando sua recepção. Nesse sentido o poema é “realista”: o maior inimigo da fé não é tanto o totalitarismo, mas a banalidade, a dificuldade com o cotidiano. Se a vida fosse extraordinária o tempo todo, ela seria bem mais fácil, isto temos de admitir.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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