Bakunin & Belinsky segundo Tom Stoppard

Talvez vocês tenham notado que pus na barra de links The Coast of Utopia Blog, sobre a trilogia de Tom Stoppard que estreou em NYC (as peças estiveram em cartaz em Londres em 2002) recentemente. Estou cogitando ir aos EUA só para ver – ainda não sei, mas é provável que eu vá.

Ainda vou escrever mais sobre The Coast of Utopia, que li e que já me levou a ler Russian Thinkers, de Isaiah Berlin (“o espírito que preside a trilogia”, segundo Stoppard). Por ora, como continuo sem poder desenvolver nada mais longamente, fiquem com uma tradução minha de um trecho da primeira peça, Voyage. A cena se passa na casa dos pais de Mikhael Bakunin e suas irmãs e pais estão presentes. A fala longa pertence a Vissarion Belinsky.

Duas observações:

1. O leitor habitual de O Indivíduo já sabe que eu não concordo com essa conversa idealista do Belinsky, nem com outras coisas. O que eu quero é mostrar o quanto a peça é interessante. Observe as semelhanças com o Brasil.

2. Se você achar ruim a parte da “África” lembre-se de que essas são as palavras (que talvez Belinsky tenha dito mesmo, porque já peguei vários outros trechos das peças nos escritos dos revolucionários, sobretudo Herzen) de um sujeito monolíngüe na Rússia tzarista querendo dar uma de crítico literário. Se você quiser processar alguém, você é burro demais para ler este blog, e vá procurar o Tom Stoppard.

A minha edição é a primeira edição americana, de 2002, da Grove Press.

BAKUNIN: Você disse que nós não temos literatura.

BELINSKY: É isso que eu escrevo. Não temos mesmo. Temos algumas obras-primas, como é que não teríamos, somos tantos, um grande artista vai aparecer de tempos em tempos em países bem menores do que a Rússia. Mas como nação não temos uma literatura porque aquilo que temos não é nosso, e sim uma festa em que todo mundo tem que vir vestido de outra pessoa – Byron, Voltaire, Goethe, Schiller, Shakespeare ou algum outro… Eu não sou artista. Minha peça era ruim. Não sou poeta. Um poema não pode ser escrito por um ato de vontade. Enquanto estamos nos esforçando ao máximo para estar presentes, um poeta de verdade fica ausente. Nós podemos observá-lo no momento da criação, ali está ele, segurando a caneta, que não se mexe. Quando ela se mexe, já perdemos. Para onde ele foi naquele momento? O sentido da arte está na resposta a esta pergunta. Descobri-lo, entendê-lo, saber a diferença entre quando acontece e quando não acontece, esse é o grande objetivo da minha vida, e essa vocação não é desprezível num país onde nossas liberdades não podem ser discutidas porque não temos nenhuma, e não se pode discutir ciência ou política pela mesma razão. Aqui o crítico literário tem de trabalhar dobrado. Se alguma coisa verdadeira pode ser compreendida sobre a arte, alguma coisa vai ser compreendida sobre a liberdade também, e sobre a ciência e a política e a história – porque tudo no universo está se desenrolando simultaneamente com um propósito, do qual o meu é um pedaço. Você tem razão de rir de mim porque eu não sei alemão nem francês. Mas a verdade do idealismo seria clara para mim se eu ouvisse da janela uma frase de Schelling berrada por um homem a cavalo. Quando os filósofos começam a falar como arquitetos, fuja enquanto pode, vem aí o caos. Quando eles começam a deitar regras para a beleza, a partir daquele momento é inevitável que o sangue corra pelas ruas. Quando a razão e o cálculo se tornam critérios para a sociedade perfeita, procure refúgio entre os canibais… Porque a resposta não está em algum lugar como a América esperando por Colombo, a mesma resposta para todo mundo para sempre. A idéia universal fala através da humanidade mesma, e fala de um jeito diferente através de cada nação em cada fase de sua história. Quando a vida interior de uma nação fala através do espírito criativo inconsciente de seus artistas, geração após geração – aí você tem uma literatura nacional. É por isso que não temos nenhuma. Olhe para a gente! – uma criança gigante com uma cabeça minúscula cheia de idolatria por tudo que é estrangeiro… e um corpo imenso e inerte largado em seu próprio excremento, um continente de vassalagem e superstição, uma África de gente que não sabe nada e não tem nada, sem a menor idéia de uma vida melhor, sem nem mesmo a capacidade de inquietar-se, sóbrios ou bêbados, isso é a Rússia, que se mantém unida por informantes da polícia e quatorze patentes de lacaios uniformizados – como é que podemos ter uma literatura? Folclore e modelos estrangeiros, esse é o nosso destino, ficar babando pelas nossas imitações de Racine e Walter Scott – a nossa literatura não passa de um passatempo elegante das classes superiores, como a dança ou o baralho. Como foi que isso aconteceu? Por que este desastre se abateu sobre nós? Porque ninguém nunca acreditou que fôssemos crescer, somos tratados como crianças e merecemos ser tratados como crianças, trancados em armários por mau comportamento, mandados para a cama sem jantar e não ousando sequer sonhar com a guilhotina…

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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