Psicologia de um vencido

Augusto dos Anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
monstro de escuridão e rutilância,
sofro, desde a epigênese da infância,
a influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
que o sangue podre das carnificinas
come, e à vida em geral declara guerra,

anda a espreitar meus olhos para roê-los,
e há de deixar-me apenas os cabelos,
na frialdade inorgânica da terra!

Duração: 1m39s
[audio:psicologia.mp3]

Augusto dos Anjos é o primeiro poeta de muita gente, o que se deve, com toda certeza, ao fato de seus poemas serem musicais, grandiloqüentes, declamatórios e, numa grande medida, góticos – a combinação perfeita para a mistura de solenidade e tosquice (voluntária e/ou involuntária) que é a adolescência. Seus temas são perfeitamente datados: no fim do século XIX, no início do XX, o progresso tecnológico – telégrafo, rádio, luz – parecia uma grande novidade e não cabia no imaginário, levando a uma associação muito freqüente entre pesquisa e ocultismo. O tema do domínio da natureza com a conseqüente “libertação” do homem, presente desde sempre, começa a ser tratado pelo casal Shelley (sobretudo, é claro, por Mary) no início do século XIX e aparece em miríades de sociedades secretas e doutrinas, até que o voluntarismo e a crença no progresso vão dar na Primeira Guerra Mundial – e isto, aliás, parece ser o tema do último livro de Thomas Pynchon, Against the Day.

Enquanto o mundo efervescia, não consigo imaginar o que significava ter uma imaginação prodigiosa e dotes verbais igualmente portentosos na Recife do início do século XX. Não gosto de explicar as pessoas pelas circunstâncias porque as circunstâncias são sempre só metade da equação. Mas é possível imaginar Augusto dos Anjos absorvendo as novidades que chegavam através de livros e jornais e, num ambiente que ainda demoraria para ser “moderno”, incumbir-se a si mesmo de ser o verbo encarnado das novas tendências. Em “Psicologia de um vencido”, todos os elementos estão presentes: a “ciência” do carbono e do amoníaco se mistura ao “ocultismo” do zodíaco; o cosmos inteiro conspira contra o vencido, que também conspira contra si por ser “profundissimamente hipocondríaco” (um dos melhores decassílabos da língua, este); as palavras são usadas mais pelo som do que pelo significado – afinal, o que aquele “inorgânica” está fazendo no último verso, e qual a função de “amoníaco” além de rimar com “zodíaco? – e a exclamação final tira qualquer dúvida imaginável sobre o desejo de teatralidade e oralidade, fazendo o leitor desejar que um dia Zé do Caixão faça um filme de Augusto dos Anjos…

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com