Sete anos de pastor

Camões

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida,

começa de servir outros sete anos,
dizendo: “Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.”

*Publicado pela primeira vez em 1595, quinze anos após a provável data da morte do poeta.

Leitura e comentário: 2m18s.
[audio:seteanosdepastor.mp3]

No apêndice da edição de 1802 das Lyrical Ballads, William Wordsworth incluiu uma nota sobre a dicção poética (“poetic diction”), que ele sugere ser a gordura introduzida pelos poetas em suas obras, em detrimento da concisão e da própria linguagem. Wordsworth oferece algumas comparações entre paráfrases bíblicas feitas por eminentes poetas da língua inglesa e a tradução inglesa da Bíblia (a King James), que sempre se sai melhor. Wordsworth tem razão: nas línguas em que eu já li, os poemas de paráfrase bíblica quase sempre parecem um exercício fútil de estilo feito às custas de uma piedade afetada. Uma das grandes exceções é o nosso famoso “Sete anos de pastor”, de Camões, que já começa bem por tomar como mote o amor de Jacó por Raquel, e não alguma crosta imaginada de piedoso sacrifício, do Jacó se curvando à autoridade de Labão, ao costume sagrado das tribos etc. Aliás, quem quiser a “fonte” do poema pode ir ao capítulo 29 do livro do Gênesis (cito a tradução de João Ferreira de Almeida porque é a melhor disponível na internet em português).

Sobre a construção do poema gostaria de destacar duas coisas. O segundo verso de cada quarteto faz enjambement com o anterior, isto é, a leitura não pode ser interrompida. Existe um grande debate sobre como se deve ler a poesia: respeitando as pausas ao fim dos versos (afinal, o fim do verso há de indicar alguma coisa) ou seguindo a ordem sintática, como se fosse prosa. Eu acredito numa solução intermediária e tensional: os melhores leitores de poesia – para mim, Auden e Geoffrey Hill (a leitura dele do Salmo 39, na tradução de Miles Coverdale, logo no começo, é de converter os pagãos) – conseguem ler com ritmo sem prejuízo do sentido. Mas alguns poemas, ou trechos de poemas, realmente clamam por ser lidos de uma determinada maneira. Aqui o segundo verso de cada quarteto começa com uma palavra que ocupa posição fundamental na estrutura sintática: “Labão” é objeto direto e “passava” é o verbo. Sempre que damos uma pausa antes do objeto direto indicamos suspense e marcamos o suspense com o uso de reticências. “Sete anos de pastor Jacob servia… Labão”. O suspense aqui não cabe, pois a história de Jacob, Labão, Raquel e Lia não só é conhecida como certamente o era muito mais no século XVI português. Por isso, é preciso ler direto, saltando sobre a pausa: “Jacob servia Labão”. Quanto ao “passava” do segundo quarteto, ainda que ele seja antecedido por uma vírgula, que habitualmente indica uma pausa, não podemos nos demorar muito: não haveria nem mesmo suspense, mas sim estranhamento, se após dois advérbios (um de tempo e um de modo), não viesse algo que os estruturasse, como o verbo. O verso iniciado por verbo também tem um estranhamento próprio que pode ser anulado se eliminamos a pausa, deixando a segunda vírgula apenas como a compensação obrigatória da primeira, antes de “os dias”.

A segunda coisa a observar do ponto de vista formal é que certos sotaques portugueses, levados ao extremo, eliminariam algumas vogais que devem ser obrigatoriamente pronunciadas para o poema continue com dez sílabas métricas (e, raios, se sílabas métricas não são sílabas sonoras, são apenas uma perversão formalista: encontramos isso no Parnasianismo brasileiro, mas em Camões…), trazendo uma certa vantagem ao português brasileiro, que, até onde eu sei, em nenhuma de suas variações prima pelo assassinato de vogais. O poema lido por um português pode ficar com “srvia” no lugar de “servia” e com toda certeza com “esp’rança” no lugar de “esperança”. O caso aqui não é tão grave quanto o da primeira estrofe dos Lusíadas, que, se lida com o sotaque português contemporâneo, perde muitas sílabas métricas, mas há alguma perda de sonoridade. Isto fica mais claro no meu comentário em áudio com a leitura.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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