O maior poema da língua portuguesa

Quem me conhece pessoalmente sabe que eu adoro fazer afirmações categóricas a respeito das coisas, ainda que dali a duas semanas eu venha a afirmar categoricamente o contrário. Tudo bem; detesto desculpas astrológicas, mas assim são os geminianos. O que importa, agora, é que hoje fiquei com muita vontade de fazer uma séria afirmação categórica: o maior poema da língua portuguesa – ao menos o maior soneto – é “Transforma-se o amador na cousa amada”, de Camões.

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co’a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.

Agora, é claro, vamos explicar porque este é o maior poema da língua. Na primeira estrofe, temos uma bela síntese poética de uma doutrina de Aristóteles: “a alma é de certo modo tudo”. E por que é assim? Bem, tudo o que existe é objeto de conhecimento. O conhecimento se dá na alma. Logo, para um objeto poder ser conhecido, ele tem que primeiro existir como objeto de conhecimento possível ou potencial na alma. Se eu conheço o laptop onde escrevo, se conheço minha namorada, se conheço o cajuzinho que comi nesta tarde, é porque eles antes mesmo de se apresentarem para mim já existiam como formas que minha alma poderia apreender, isto é, eles estavam potencialmente nela. Concentrando minha atenção em um objeto, minha alma fica cheia dele; e “amar” não deve ser entendido de outra forma senão como uma forma de concentrar a alma em algo. Quem ama sua namorada pensa muito nela. Quem ama as virtudes pensa muito nelas. Se podemos dizer que nosso corpo é aquilo que comemos, também podemos dizer que nossa alma é aquilo que pensamos.

Mas Camões sabe que esta linda doutrina traz um problema: se o amador se transforma naquilo que ama, isto é, se há uma identificação entre desejante e desejado, porque persiste o desejo de posse? Esta posse já não existiria na transformação do amador? Camões desloca esse desejo para o corpo, mas – tecnicamente, de um ponto de vista filosófico – é na alma que se dá o desejo. O desejo pode, porém, nascer no corpo, e está, certamente, ligado a ele de modo intrínseco: existindo sob a forma de um corpo, a pura alma não se vendo em lugar nenhum, o indivíduo deseja um outro corpo, deseja satisfazer corporalmente o desejo que existe em sua alma – “como a matéria simples busca a forma”.

A “matéria simples” é possivelmente a matéria desprovida de determinações, de qualidades; a forma é justamente essa determinação ou qualidade. Assim, o corpo, que é em princípio passivo e determinável em relação a alma (e não há qualquer platonismo em dizer isto), busca algo que o determine, e se alguém duvida disso pode lembrar que as pessoas que não têm uma motivação para viver (qualquer motivação) acabam vivendo menos ou pior.

Ainda seria possível comentar o poema de muitas outras maneiras. Mas, para perceber sua grandeza, basta ver como Camões apresenta claramente um ponto de Aristóteles sobre a alma, e depois o paradoxo que ele sugere. Isto nos quartetos. Nos tercetos, a solução; não, é claro, uma solução filosófica rigorosa, mas uma sugestão “existencial” que pode ser interpretada da maneira correta pelos homens de boa vontade.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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