Os falcões

Publicado originalmente em Pequena Morte.

I falchi
Bruno Tolentino

Dicono: ‘lascia stare, anche di loro
ti scorderai, perche è così la vita;
c’è il buio ormai, non c’è più l’ala d’oro,
hai torto di stupirti che sconfitto

cada ogni falco dalla sua altezza…’
Il sogno che sognai dell’infinito
era ancora promessa ed ogni ebbrezza
ad ogni altezza mi sarà rapita,

tutto è troppo mortale, e ben lo sò.
Eppur quel giovanotto li portava
ben aggiustati al cuore, erano lava

e vulcano, e nessuno, e niente può
tagliarci in due, quei miei falchi ed io.
Non hò mai imparato a dire addio.

Os falcões
Bruno Tolentino / Trad. Pedro Sette Câmara

Dizem-me: “deixa estar, deles ainda
te lembrarás, porque assim é a vida:
agora as trevas, a asa de ouro finda;
erras ao espantar-te que, vencido,

caia cada falcão da sua altura…”
O sonho que sonhei com o infinito
era promessa então – cada loucura
a cada altura me será tolhida,

tudo é mortal demais, o que eu sei bem.
Contudo aquele jovem os levava
no coração bem postos, eram lava

e vulcão, e ninguém, e nada vem
dividir-nos, a mim e aos falcões meus.
Nunca mais aprendi a dar adeus.

Aqui você pode me ouvir recitando o poema original e minha tradução. A gravação tem 1min49s.
[audio:ifalchi.mp3]

“I Falchi” está na página 303 de O mundo como Idéia, de Bruno Tolentino (São Paulo: Globo, 2002), livro que reúne poemas escritos ao longo de trinta anos em português, inglês, francês e italiano. Ao menos uma palavra sugere que foi um dos primeiros poemas a ser escritos: “ebbrezza”, aqui traduzida por “loucura”. Literalmente “ebbrezza” significa “embriaguez” (no português também chamamos o embriagado de “ébrio”), e sugere que Tolentino ainda começava a formular a questão central do livro, que é a oposição entre o frio formalismo que, ao tentar capturar a beleza, abole a vida e por tabela a própria beleza, e a difícil aceitação de que esta reside em coisas que morrerão inevitavelmente. Para designar o estado de humildade diante das coisas que permite a visão mais pura, uma certa anulação da consciência (já presente em seu livro de estréia, Anulação & outros reparos), Tolentino veio a usar a palavra “rapto”, que também tem o sentido de “enlevo, êxtase” e cuja raiz é muito freqüente na língua inglesa com a palavra de sentido idêntico “rapture”. Mas o uso de “ebbrezza” sugere que Tolentino ainda pensava na oposição entre o artista e a pessoa comum em termos mais românticos, isto é, em termos que já estavam prontos, e que veio a abandonar quando equacionou o problema à sua própria maneira, mais sofisticada.

De todo modo, como cabe ao tradutor ser fiel antes ao poema do que àquilo que o poeta enfim se tornou, e ainda sabendo que o próprio poeta quis publicar o poema assim mesmo já em sua maturidade, não há rigorosamente nenhuma razão para insistir na fidelidade ao último Tolentino – além de ser ingenuidade ignorar a conveniente rima com “altura”.

O poema ainda traz a “asa de ouro”, clara referência ao pássaro de ouro de Byzantium e Sailing to Byzantium de W.B. Yeats, que, sendo imortal (feito de “changeless metal”) cantava aos mortais os acontecimentos de todos os tempos (“what is past, and passing, or to come”), e cujo canto teria levado o poeta a conhecer a “ebbrezza”. Vencendo a mortalidade e preservando a beleza, o “tordo de Bizâncio” – como aparece em outros poemas de Tolentino – enlevaria, isto é, elevaria o ouvinte, daí que sua voz possa ser chamada de “asa”.

Os falcões do poema retornam, mas como um único falcão, na página 205 de Os deuses de hoje (Rio de Janeiro: Record, 1995), em que o momento imóvel do falcão sugere o momento de rapto preconizado por Tolentino:

O falcão parado
no ar um momento,
imobilizado
no ar pelo vento
que lhe empurra o peito
parado, perfeito,
no exílio do céu.
(…)

Mas a sugestão do rapto, que é instantâneo, e só não dizemos “atemporal” para não cair na Idéia – fica por aí mesmo: logo depois Tolentino se identifica ao falcão – como já tinha dito, ele não podia ser separado dos falcões – e diz que abandonou a solidão da altura para juntar-se à grei; isto é, Bruno Tolentino abandonou fisicamente a vida que levara por décadas na Europa para retornar ao Brasil, pois “não soube ser / daqui nem de lá”. E, provando que realmente não aprendeu a dar adeus a seus falcões, tira deles a lição da altura e da solidão, que permanece gravada na alma, que o alheado carrega mesmo quando volta, e que, novamente à moda de Yeats, purifica, já que “é ainda um sinal / da torre ancestral / que há no coração.”

Autor: Pedro Sette-Câmara

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