Dar a vida pelo país? Não, obrigado

A penúltima enquete que figurou na barra lateral do Indivíduo perguntava aos leitores até onde ia sua lealdade, isto é, qual a máxima entidade pela qual eles arriscariam a própria vida. Aqui vão os resultados:

Meu país: 26 votos.

Meu estado: 3 votos.

Minha cidade: 5 votos.

Minha família: 196 votos.

Total: 230 votos.

Mesmo descontando a obviedade de que os leitores do Indivíduo têm certas predisposições, fiquei impressionado com o número de pessoas que só se arriscaria pela própria família. Eu mesmo votei em “minha cidade”. Eu defenderia o Rio de Janeiro de pessoas que quisessem modificar minha maneira de viver. Meus laços afetivos se estendem a boa parte da cidade, onde estão meus familiares, meus amigos, as empresas para as quais trabalho, diversos lugares que estão associados a certas lembranças. Eu deixaria o Rio de Janeiro por diversas razões, mas enquanto morar aqui vou defendê-lo, até porque ele pode ser muito bom. Mesmo.

Agora, por mais que eu pense, não consigo imaginar como a tomada da Amazônia e de tudo que está muito longe do Rio de Janeiro afetaria a minha vida. Eu não recebo nenhum benefício, e ainda pago impostos ao governo federal para que ele faça coisas que eu nem imagino. Por isso, diante da pergunta “Você arriscaria sua vida para que o governo federal continuasse ocupando aqueles territórios?” não apenas respondo que não como ainda digo que muito provavelmente eu arriscaria a vida para expulsar o governo federal da minha cidade. Aliás, sou integralmente a favor da fragmentação do Brasil (e de todos os países) no maior número possível de mini-repúblicas. Qualquer coisa maior do que uma cidade-estado independente está fadada a virar uma tirania.

Vejam como o Brasil é grande e como as pessoas são diferentes. Aposto que os gaúchos, os baianos, cearenses e mineiros ficariam muito mais felizes de virar República de Porto Alegre, de Salvador, de Fortaleza, de Belo Horizonte. Eu também ficaria muito feliz e pediria um visto para ir visitá-los. Assim seria mais fácil apreciar suas tradições: como algo estrangeiro, sem ter que procurar em mim a conexão íntima que une o que quer que seja “brasileiro”.

Detesto a palavra brasileiro. Tem sufixo de profissão: marceneiro, carpinteiro, brasileiro. Brasileiro era o português que saía de Portugal para fazer fortuna no Brasil e depois voltava – na literatura, nos romances de Camilo Castelo Branco, sempre um tipo ridículo. E, como os portugueses de outrora, sem o menor desejo de ficar por cá; daí que até hoje nós também queiramos tanto emigrar, porque a colonização produziu aqui uma Europa de segunda categoria, e não o “novo mundo” (os EUA são o novo mundo, mas isso é assunto para depois). Deveríamos ao menos ter seguido Rui Barbosa e ficado com “brasiliano”, o que teria sido muito mais sensato, além de poupar a 100% dos estrangeiros a explicação constrangedora da origem da palavra. Brazilian, brésilien; ninguém adaptou o sufixo profissional na tradução do nosso adjetivo pátrio; carpenter, charpentier, Braziler, brésilier?

Em um antigo artigo da New Criterion, Roger Scruton comenta a frase de De Gaulle: “toda a minha vida eu tive uma certa idéia da França”. Eu não tenho uma idéia do Brasil que eu gostaria de preservar, uma idéia relacionada ao presente ou ao passado, e a idéia do “país do futuro” realmente não cola mais, para ninguém. Eu gostaria de ter uma idéia: a idéia do país da velha democracia racial, onde o jeitinho fosse inglesamente institucionalizado e a liberdade fosse um fato sem precisar virar um direito, mas, seguindo um dos piores hábitos portugueses, a cultura francesa imperou por tempo demais e, pior ainda, ficou a velha mentalidade imperial européia, exigindo garantias, estabilidades, sinecuras, pompas ridículas de compassinho maçônico e um hino nacional que seria mais fácil de entender se estivesse em latim. Afinal, quanta gente sabe que o sujeito da primeira oração é “as margens plácidas”?

Não sei que resultados teria a mesma enquete feita num grande portal, mas acho que, se o Brasil fosse mesmo invadido por qualquer país, o número de pessoas que se alistaria para defendê-lo seria muito baixo. E sem isso não há um país, só uma inércia – o que, aliás, a experiência comprova todos os dias.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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