Os republicanos e a guerra

Ao contrário do que se diz por aí, não há nada de “histórico” ou surpreendente na vitória eleitoral dos democratas nos EUA. Trata-se de mais do mesmo: desde a 2ª Guerra Mundial, o partido do Presidente perde, no 6º ano de mandato (ou seja, no 2º ano do 2º mandato) uma média de 31 assentos na Câmara dos Deputados e de 6 assentos no Senado.

De lá para cá, aliás, o recordista na perda de assentos nas mid-term elections foi o hoje santificado Presidente Democrata Bill Clinton: 49 cadeiras na Câmara dos Deputados e 9 no Senado.

É a velha história do equilíbrio dos poderes, sustentáculo da democracia americana. O que era efetivamente anormal era o predomínio dos republicanos no Congresso durante 12 anos. Isso parece ter produzido uma justificada saturação no eleitor americano, especialmente diante de escândalos de corrupção (pois é, por lá isso faz diferença) e da aparente ausência de saída da guerra do Iraque.

Desde o início escrevi contra a guerra do Iraque, o que me rendeu não poucos insultos dos ditos conservadores brasileiros (conservadores do quê?). Mas até hoje não me convenceram do contrário, e bem que eu tentei mudar de idéia.

Essa guerra sempre me pareceu um esforço inútil e injustificável, que atraiu para os americanos a antipatia mundial e só serviu para despejar dinheiro público pelo ralo. As evidências que surgiram — ou melhor, as evidências que não surgiram — nos últimos anos só vieram confirmar essa impressão. Não existiam as tais “armas de destruição em massa”, o Iraque nada teve a ver com o 11 de setembro e não representava nenhum tipo de ameaça aos Estados Unidos.

Já essa história de que Saddam Hussein tinha de ser deposto porque era um tirano me parece, francamente, conversa de esquerdista e de defensores do “governo mundial”. Não é papel dos EUA arvorar-se a policiar o mundo inteiro. No fim das contas, isso só vai contra o próprio interesse nacional americano.

Por causa dessa maldita guerra, qualquer iniciativa contra ameaças reais — tais como a Coréia do Norte e o Irã — está agora abortada, e, portanto, o saldo final é que desde então o mundo se tornou mais inseguro.

É fato que o Iraque não explica por completo o resultado eleitoral americano. Se explicasse, como justificar a eleição do senador pró-guerra Joe Lieberman, em Connecticut, correndo como independente contra o candidato que o derrotou nas primárias do Partido Democrata justamente por causa de suas posições sobre o assunto? Como justificar a derrota do Republicano anti-Bush Lincoln Chafee em Rhode Island?

É evidente que questões locais pesam muito nesse gênero de eleições, e que a questão não se resume à avaliação dos americanos sobre questões geopolíticas.

Mas há derrotas significativas de republicanos que não têm nenhuma outra explicação senão a oposição radical da população aos rumos da guerra. O veterano Robert Novak nota o seguinte:

“The bellwether of defeats to come was the Louisville, Ky., district where the respected Rep. Anne Northup, who won 60 percent of the vote two years ago, was defeated for a sixth term. There was nothing she had done wrong or that her opponent had done right to cause her defeat. The same was true of other highly regarded Republican congressional veterans who were defeated Tuesday, headed by Nancy Johnson of Connecticut, Clay Shaw of Florida and Jim Leach of Iowa.

Exit polls confirmed what had been clear to anyone who spent any time on the campaign circuit this year. Opposition to the war and the president had produced a virulent anti-Republican mood. About two weeks before the election, political technicians running the campaign of Rep. Charles Bass in New Hampshire suddenly realized that the popular six-termer was in deep trouble. His moderate voting and record of pork-delivery (including a federal prison for his district) meant nothing. He was swept under by the anti-Iraq voting tide.”

É claro que a tendência dos democratas é votar a favor de impostos e da expansão do Estado, mas, a rigor, uma divisão entre Congresso e Presidente, com o enfraquecimento de ambos, faz bem a qualquer país.

Insuportável é ter de ler os ignorantes na imprensa brasileira celebrando a vitória do que eles imaginam ser a “esquerda”, ou, pior ainda, ler que Hugo Chávez celebrou em público o resultado. Só isso já basta para deixar qualquer pessoa de bom senso desgostosa com essas eleições americanas.

Chávez, aliás, promoverá novas eleições em breve. Certamente será eleito com 99% dos votos, a exemplo de seu ídolo Saddam Hussein. Mas, claro, Bush é que é o tirano…

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