Antes que me estranhem

Não, não me tornei um tucano. Deus me livre!

O ideário liberal merecia melhor sorte no calendário eleitoral brasileiro. Continua a faltar um candidato, ou um partido, que defenda, com firmeza, a preservação dos contratos, o respeito aos direitos de propriedade, o enxugamento do Estado, a redução dos impostos. Minha posição é ainda mais liberal (ou anarco-capitalista, como queiram), mas me daria por satisfeito com isso.

Alckmin, que está nitidamente à direita de seu partido, talvez pudesse ter sido esse candidato. Mas não foi, em parte por culpa de sua própria tibieza, em parte por culpa da ditadura dos marqueteiros, em parte porque o Partido rejeitaria essa opção.

Otávio Frias Filho chegou a escrever sobre isso na Folha, nos seguintes termos:

“Quando assumem o poder (vide PSDB e PT), praticam uma política liberal temperada por compensações sociais bancadas pelo Estado, ou seja, pelo contribuinte. É o que José Guilherme Merquior chamava, já na época de Collor, de social-liberalismo. Mas ainda não surgiu um candidato que pregue o liberalismo sem meias medidas. Alckmin poderia ter sido esse candidato (não será outro o vetor de seu governo, em caso remoto de vitória), mas que marqueteiro o deixaria correr tamanho risco?”

Agora, tudo isso não me impede de considerar francamente desprezível a posição de determinados liberais, de considerar que o resultado das eleições era indiferente, porque se confrontavam dois tipos de social-democracia.

Na disputa entre um partido bandido, que tem o propósito evidente de corromper e corroer por dentro o próprio sistema democrático, e um outro que, embora defendendo teses social-democratas equivocadas, admite a convivência democrática e a alternância de poder, não pode haver opção pela neutralidade. É, antes de tudo, uma questão de decência.

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A falsa solução

Agora, não me venham os tucanos dizer que José Serra teria sido a solução.

Serra provavelmente teria feito uma campanha à esquerda de Lula, especialmente em temas econômicos, e sua participação no pleito teria por resultado aprofundar o predomínio do linguajar e do pensamento (ops!) esquerdistas sobre o debate político no país.

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A lista continua

Eu disse que a lista de temas ausentes da campanha presidencial não era exaustiva. Eis outros temas:

– Celso Daniel

– O apoio petista à legalização do aborto

– O dinheiro de Cuba para o PT

– O dinheiro das FARC para o PT

Tudo amplamente divulgado pela imprensa, na época própria, e esquecido durante a campanha, enquanto a oposição brigava entre si.

Cada vez mais me convenço de que a oposição mereceu perder. Se é que, como andaram divulgando alguns colunistas, não perdeu de propósito, numa ingênua crença de que Lula não conseguirá formar um sucessor.

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Nem tudo está perdido

O esforço lulista para comprar votos dos agricultores e empresários deu certo.

Alckmin poderia escrever a incrível história do candidato que encolheu. Conseguiu perder 2,4 milhões de votos entre o 1º e o 2º Turnos.

Lula continuou a perder no Mato Grosso, no Mato Grosso do Sul, em São Paulo, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, mas sua votação aumentou em todos esses estados, enquanto a de Alckmin caiu.

Ainda assim, e apesar dos apelos em contrário da imprensa, permanece a nítida divisão entre os Estados que produzem riqueza e pagam impostos, contra aqueles que consomem a riqueza alheia.

E nem tudo está perdido: os gaúchos confirmaram a erradicação da praga petista.

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Rumo a Cuba

Os arroubos totalitários já começaram.

Lula, no discurso de celebração de ontem, lamentou que as medidas que toma demorem a ser implementadas, e lançou a bravata: “Medida tomada na minha mesa terá de ser implementadas em 30 dias. Os problemas que sejam resolvidos antes.”

Coisa de ditador. Na democracia, o Presidente não governa sozinho, e entende que as instituições têm um tempo próprio, que impede que medidas políticas sejam adotadas do dia para a noite. E ainda existe um negócio chamado Parlamento.