The good guys lost

Everybody knows the war is over

Everybody knows the good guys lost

O que transformou o perdedor de três eleições presidenciais sucessivas numa imbatível máquina de recolher votos e ganhar eleições?

Os motivos, certamente, não são os mesmos para a eleição deste ano do que para a eleição de quatro anos atrás.

Ali, era o auge da penetração petista da mídia, e Lula tinha como adversário um ministro de um Governo em crise, enfraquecido política e economicamente. Pior: um ministro que sempre fora crítico do Governo de que participara, cuja indicação contrariou diversos aliados, e que não tinha a menor disposição (ou convicção) de defender os pontos fortes daquele Governo. Eram favas contadas.

Aqui, a equação mudou, mas continua a favorecer Lula. Ele passou a ter a seu dispor a fabulosa fortuna do voraz Estado brasileiro, e não teve o menor pudor de usá-la para despejar dinheiro nos seus potenciais eleitores.

O Bolsa Família, um programa populista e anacrônico, adaptação piorada de programas sociais do Governo anterior, tornou-se uma máquina de compra de votos, tanto porque seu pagamento ficou atrelado à campanha eleitoral de Lula, quanto porque o PT começou a espalhar o boato de que, com a eleição de Alckmin, o programa acabaria. Cá entre nós: antes fosse verdade…

O esquema não se restringiu à campanha de Lula. Todo o PT foi favorecido com o mecanismo de espalhar benesses em troca de votos. Foi assim que o Partido tomou o lugar do PFL no Nordeste, e ganhou eleições para Governador em três estados por lá (e ainda ganhará outras no 2º turno).

Há uma excelente matéria sobre isso na VEJA da semana passada, da qual colho a observação do Deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA), um dos mais brilhantes políticos brasileiros:

“A vitória dos aliados de Lula no Nordeste é a vitória do coronelismo da era digital. O cartão do Bolsa Família é a institucionalização da compra de votos”, diz o deputado José Carlos Aleluia, do PFL baiano. O poder dos antigos coronéis era lastreado em uma relação de troca. Os eleitores lhes confiavam o voto e, em contrapartida, ganhavam algum benefício, numa relação que combinava favor e coerção.

A esmola com carimbo estatal se somou à estabilidade da moeda, para dar ao Governo a força imbatível de fazer a população ter a sensação de que tudo está indo muito bem no país.

Obviamente, o que há de meritório nisso é a estabilidade da moeda, que se deve ao Governo anterior, e foi intensamente combatida pelo PT. Mas eles não têm vergonha de assumir as virtudes alheias. Estava num táxi outro dia, e ouvi a propaganda do PT no rádio. Eles diziam que, no Governo Lula, a moeda foi estabilizada.

Também li em algum lugar que, num dos programas da campanha eleitoral televisiva, Lula, o grande opositor das privatizações, aparecia como responsável pela multiplicação de celulares entre a população pobre.

E assim foi ao longo de toda a campanha eleitoral, que se iniciou exatamente no dia que Lula tomou posse. Lula assumiu um discurso de fundador do país. Criou-se um bordão de governo (o que significa, automaticamente, um bordão de campanha): o “nunca antes neste país…”. Essa era a senha para introduzir alguma asneira grandiloqüente, e Lula é pródigo na criação de asneiras do gênero.

“Nunca antes neste país alguém fez tanto pelos pobres.”

De fato, com Bolsa Família e moeda estável, e com o Governo assumindo a paternidade de qualquer programa político positivo que tenha surgido nos últimos 500 anos, o slogan tornou-se verdade.

Tornou-se verdade à maneira como, na famosa frase de Goebbels, uma mentira repetida incontáveis vezes se torna verdade. E mentiras não faltaram à campanha do PT.

Na base da mentira, Lula passou a usar até mesmo os escândalos em seu favor. Dizia que mensalão, sanguessugas, cartilhas desparecidas e dossiegate só apareceram porque ele deixou de “jogar a sujeira para baixo do tapete”. Disseminou, ainda, e com a colaboração da imprensa “mais vendida”, a tese delinqüente de que os tucanos é que teriam sido responsáveis pelo dossiê.

Mas ? e aqui vem aquela parte em que vocês devem tirar as crianças da sala ? quem estuda um pouco de retórica sabe que nenhum discurso retórico prospera se não tiver uma platéia minimamente disposta a ser convencida daquilo que se está a defender.

O que significa dizer que, não bastasse a compra institucionalizada de votos, Lula se beneficiou do fato de ser igual à maioria da população brasileira. E não estou falando de sua imagem de “igual a um de nós”, ou de sua apologia do pobrismo, mas da própria falsidade existencial que o caracteriza.

Ocorre que, como alguns estudiosos de política detectaram já há algum tempo, a população, em certos locais, deixou de pretender eleger um líder, uma figura modelo, e passou a votar naquele que mais se parecesse com ela própria. Desapareceu a distância, seja de ordem moral ou intelectual, entre governantes e governados.

A maior parte da população tem consciência de que, como Lula, não teria a menor condição, o menor preparo, para assumir um cargo de liderança. As pessoas sabem que, se fossem colocadas nessa situação, só lhes restaria disfarçar com frases pomposas a própria incapacidade, e, ao mesmo tempo, “aproveitar” a oportunidade para refestelar-se na condição de poderosos.

É por isso que a população aplaude o Aerolula, aplaude o loteamento de cargos para favorecer amigos e colegas de partido, aplaude o “vale-tudo” de corrupção endêmica em que se tornou o Governo do PT. É porque eles sabem que, se estivessem no lugar de Lula, aproveitariam para fazer rigorosamente a mesma coisa.

Ele, de fato, é “um de nós”, e, nesse sentido, o Governo do PT é o símbolo da podridão moral em que chafurda o país inteiro, e que o levará a reeleger, com percentual expressivo, o líder do Governo mais corrupto de sua História.

Não que tudo tenha passado em branco. O Governo chegou a ter momentos de crise de popularidade, especialmente na classe média. Mas a classe média brasileira é a perfeita encarnação do “homem médio” da definição de Mises, aquele que está sempre pronto a acreditar naquilo que lhe dizem, desde que venha com carimbo oficial, e tem ojeriza a aprofundar-se no exame do que quer que seja. São, em geral, pessoas sem fibra, que vivem com medo da própria sombra e têm pavor do que possa parecer “radicalismo” ou “excesso”.

Eis aí uma população propícia para a disseminação de bordões sem sentido como “sempre foi assim”, “eles fizeram aquilo que sempre foi feito”, e assim por diante. Ou, ainda pior: “no próximo Governo, será diferente” (é isso mesmo: a imprensa adesista já está cheia de notinhas dizendo que, no próximo Governo, Lula vai passar a cuidar “pessoalmente” das coisas para evitar a corrupção). E assim, dizem as pesquisas, a classe média já está “enfastiada” do debate político, e quer seguir sua vida. Que se dane a corrosão de democracia.

Quando essa gente resolver acordar, Lula já será um novo Chavez, a estabilidade econômica terá ido pelos ralos e as liberdades políticas estarão em extinção.

Mas isso é assunto para outro post (devo também uma nota sobre como esse segundo turno presidencial fez regredir o debate político brasileiro em 20 anos).

Este aqui pode ser resumido assim: Lula será reeleito pelo Plano Real, em conjunto com programas de compra de votos em massa, e com a inestimável colaboração da combinação entre mau-caratismo e pusilanimidade.