Porta-voz do petismo

Eu leio religiosamente a coluna de Elio Gaspari. Não só porque ele de vez em quando deixa passar alguma informação relevante, mas principalmente porque, de uns tempos pra cá, a leitura de sua coluna indica os rumos que serão tomados pelo petismo. Assim, sua coluna, como tudo o que vem do PT, é para ser lida ao contrário. Se Gaspari diz que sim, podemos afirmar, com segurança, que é “não”.

Gaspari, como se sabe, é eleitor de Heloísa Helena, e isso lhe deu até mais credibilidade para cumprir o papel de plantar na imprensa, com antecedência, as “informações” que mais interessam ao PT, sempre oferecidas naquele seu peculiar tom de sabedoria superior.

Há três semanas, quando se iniciaram os intensos esforços do Governo para desvincular Freud Godoy (o Gregório Fortunato do Lula) do episódio da compra do pseudo-dossiê, Gaspari deu uma notinha dizendo que Godoy estava na história “como Pilatos no Credo”. Duas semanas depois, e já realizado o intenso trabalho “de bastidores” que levou Gedimar Passos a “reconsiderar”, com uma desculpa fajuta, a incriminação de Freud, Gaspari dedicou a seção principal de sua coluna a dizer que, no fim das contas, “Freud tinha razão”. Segundo Gaspari, sua inocência estaria cabalmente comprovada, ante a ausência de telefonemas dos responsáveis pelo dossiê para ele. É “menas verdade”, como diria Lula (apud Paulo Francis): a ausência de telefonemas não permite inferir absolutamente nada, e continuam a circular histórias de depósitos milionários inexplicáveis na conta de Freud, que (supõe-se e espera-se) ainda serão objeto de investigações.

Semana passada, o alvo do PT passara a ser o procurador Mário Lúcio Avelar, responsável pelo inquérito do dossiê. E Gaspari não fez por menos: publicou uma coluna virulenta contra o procurador, atacando o pedido de prisão dos envolvidos no dossiê, e lembrando episódio anterior em que o mesmo procurador solicitara prisões de supostos envolvidos em episódios de corrupção no Ibama, que se revelaram inocentes. Nenhuma menção ao fato de o mesmo procurador ter comandado a operação na Lunus, que encontrou dinheiro vivo supostamente pertencente à campanha de Rosana Sarney, e ter liderado a investigação sobre o rombo na Sudam, aquele em que Jáder Barbalho (atual aliado de Lula) estava envolvido. A propósito: o pedido de prisão no caso do dossiê tinha por objetivo impedir que os “meninos” do PT combinassem entre si a versão ser apresentada, frustrando as investigações. E foi exatamente o que aconteceu.

Na mesma coluna, a cantilena petista sobre o “golpismo” da oposição ganhava uma referência histórica e a aparente adesão de líderes tucanos, com uma notinha intitulada “Lembrai-vos de 1964? (porca miséria!), que “informava” que Fernando Henrique e “um bom pedaço do tucanato” estariam fora de “conversas que envolvam a desqualificação da legitimidade do mandato de Lula”. O “golpismo” em questão, vale lembrar, é a simples aplicação da lei eleitoral.

A coluna de hoje, por fim, é um verdadeiro primor de doublespeak. Começa afetando imparcialidade, ao dizer que Lula “exagera” nas declarações de que Geraldo Alckmin vai promover privatizações. Mas em seguida vem a ressalva: “exagera, mas não mente”. E segue-se o conhecido besteirol bolchevique sobre a “venda do patrimônio do Estado a preço vil” (juro que pensei que esse debate estivesse superado no Brasil, exceto em alguns redutos do PC do B. Quanta ingenuidade minha!), especificamente sobre o caso do leilão do “Nossa Caixa”. Mas o importante, aqui, não é a avaliação sobre a conveniência do leilão (reconhecidamente discutível). É que Gaspari o mérito da suspensão do leilão a Cláudio “Gardenal” Lembo. É mentira, e ele sabe disso. Quem articulou a suspensão do leilão, após horas de reunião com “Gardenal”, foi José Serra. Mas Serra é (até que se prove em contrário) aliado de Alckmin, e a revelação dessa parte da notícia desfaria a impressão que Gaspari tenta provocar no leitor: a de que Lula “exagera, mas não mente” no vexatório terrorismo eleitoral que tem feito contra seu oponente tucano. Foi, como se vê, mais um serviço bem prestado.