Túnel do Tempo

É incrível. Diante de súbitas dificuldades eleitorais, o PT imediatamente retorna a seu velho discurso bolchevista, e se põe a esbrevejar contra as privatizações e contra o equilíbrio dos gastos públicos.

Essa entrada no túnel do tempo mostra o quão farsesca é a suposta adesão dos petistas à economia de mercado, e quão tênue é a linha que ainda garante a estabilidade da moeda.

Lula disse, em algum discurso de alguns tempos atrás, que agora, no segundo mandato, é que eles poderiam começar a construir o Brasil que eles querem.

Aqui cabe uma pausa. Discursar foi o que Lula mais fez nos últimos quatro anos, de tal forma que as gerações futuras, se ainda existir um Brasil daqui a algumas décadas, terão, na reunião desses discursos, um excelente material de estudo sobre a onda de estupidez que se abateu sobre o país, a ponto de se aplaudir e reeleger um presidente capaz de dizer uma tamanha coleção de reiteradas estultices. Fecha parênteses.

Do ponto de vista cultural, já sabemos que “o Brasil que eles querem” inclui a censura aos meios de comunicação e o atrelamento da produção cultural ao controle estatal. A imprensa deu ampla divulgação ao fato de o programa de governo do PT incluir novas tentativas de controlar o conteúdo de jornais e revistas (e, claro, blogs… ah, os blogs não perdem por esperar…). Com a divulgação que ganhou, a idéia foi posta para baixo do tapete. Mas esperem só o Lula ganhar a eleição para verem como essa gente ficará serelepe e ressuscitará o tema, agora com o respaldo do “clamor das urnas”. Seguindo essa linha, um desses apparatchicks do PT declarou outro dia que era importante o Governo controlar os “excessos do capitalismo”, por meio da ajuda a veículos de comunicação.

E, agora, vem a economia. Depois de esse ridículo Guido Mantega dizer que no próximo mandato não precisará cortar gastos, nem reformar a Previdência Social, vem o Lula, conforme matéria de capa de hoje do jornal O Globo, dizer que, se dependesse dele, não teria havido privatização das telecomunicações, nem da Vale do Rio Doce.

Parece piada, mas é coisa grave. Não dá para confiar na adesão do PT ao mercado. Tudo indica que o próximo governo (que, a esta altura, dou como favas contadas) marcará um retorno ao populismo econômico mais rasteiro, somado a uma crescente exaltação hagiográfica do “grande líder” e a tentativas crescentes de amordaçar quaisquer vozes de oposição.

Contem com o PT para tentar dar cumprimento ao famoso desejo de Fidel Castro, e recuperar na América Latina aquilo que se perdeu no Leste Europeu. É esse o Brasil que eles querem.