A direita católica

Malgrado a minha antipatia espontânea por gente que preza o anonimato ao falar de assuntos sérios na internet, quero muito ler a tese que o anônimo do blog In Camera Caritatis está escrevendo sobre a direita católica. Não sei qual o escopo da tese, mas num certo sentido talvez se possa falar de “esquerda católica” desde o século XIII, graças ao Sr. Joachim de Fiore. Claro que aqui se trataria de uma esquerda muito mais mística, mas de certo modo identificada com certas ambições globalistas atuais, e inequivocamente identificada com a pretensão de realizar alguma espécie de “reino de Deus” nesta terra, seja no tempo presente ou futuro. Fosse eu iniciar um estudo assim, talvez escolhesse iniciar por Fiore e pelos franciscanos do século XIII; a reação a eles, o anti-futurismo, seria “a direita” em toda sua variedade. Ou melhor: o anti-“pentecostalismo”, isto é, a firme crença e contínua reafirmação de que a revelação cristã está completa na vida, morte e ressurreição de Jesus, que não virá um novo tempo, que ninguém senão o magistério formal da Igreja é, por assim dizer, “intérprete” obrigante do Espírito Santo para todos os fiéis.

Se a tese se limita ao Brasil, restam ainda questões muito interessantes e muito importantes para mim mesmo. Não tenho o menor problema em me identificar – até porque essa identificação, à la Ortega, é puramente circunstancial – como “direita católica”: gosto da missa tridentina, tenho asco de violão na Igreja (mas não fora dela, claro), sou contra o aborto etc. Mas também sinto um idêntico asco da monarquia e defendo a república meritocrática por princípio, e não porque esta ou aquela monarquias tenham sido podres ou inconvenientes. Também sou completamente a favor do capitalismo selvagem e desenfreado, com empresas se digladiando em competição. Estas posições – mais ou menos partilhadas por alguns amigos – fazem com que eu tenha uma certa dificuldade de integração ao meio social de uma paróquia ou de um movimento, por exemplo. O caso da paróquia não é tão interessante porque as paróquias são geográficas, e eu há anos não freqüento a minha (moro em Copacabana e hoje normalmente vou ao Mosteiro de São Bento), mas os dos movimentos sim. Entendo que os movimentos tenham carismas diferentes e sinto simpatia por eles (Opus Dei, Comunhão & Libertação – não discutamos suas diferenças de status jurídico), mas ao mesmo tempo não tenho desejo de participar. Já fui do Comunhão & Libertação e sei que o movimento possui um vocabulário próprio, uma perspectiva particular que, de certo modo, o “guetifica”, o distingue da sociedade. Não sei se o mesmo acontece com a Opus Dei, mas sei que sinto falta de algo que nunca tive: ter um ambiente católico amplo, sem ter o dilema de estar ao mesmo tempo integrado no mundo ou isolado num movimento. Gostaria de mais e maiores ambientes onde se pudesse ser simplesmente católico romano, convivendo com um Estado leigo, republicano, meritocrático e respeitador da liberdade.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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