O bem que o mercado faz às artes

Publicado no Instituto Millenium.

Mesmo os anti-brasileiros mais caricaturais não torcem o nariz para toda a nossa música. De alguma coisa gostam – ou admitem o valor de Villa-Lobos, ou, se são menos eruditos, têm suas canções populares de coração. Brasileiros no exterior ficam emocionados ao ouvir suas canções favoritas, porque trazem belas melodias e porque suas letras reproduzem um português vivo, verossímil, muito próximo da linguagem comum. Citamos versos de canções em conversas sem mudar de tom ou registro. A música é parte da nossa cultura, no sentido antropológico do termo. Está por toda parte.

A mesma coisa não acontece com o cinema. Um dia os filmes brasileiros talvez tenham sido mais populares, mas hoje nossos filmes antigos são esotéricos, enquanto filmes antigos estrangeiros costumam ser encontrados com facilidade nas locadoras. Há filmes nacionais contemporâneos que fazem sucesso, mas em cada lista de dez mais assistidos da semana no máximo encontraremos um. Porém, nas listas de músicas mais tocadas nas rádios, a relação é exatamente invertida: para cada nove nacionais, há no máximo uma estrangeira.

Agora vamos pensar. O cinema é subsidiado indiretamente pelo Estado. Para um filme vir a público, o cineasta precisa agradar alguns burocratas do Ministério da Cultura, de governos estaduais e municipais e alguns diretores de empresas – normalmente, de empresas estatais como a Petrobrás, que financia quase todo o cinema nacional. Todo filme pode ser um prejuízo completo: ele já foi pago pelos impostos que as empresas não pagaram. Assim, quem trabalha com cinema pode até ganhar dinheiro e fama se fizer um filme lucrativo, mas quem fizer um filme que ninguém pague para ver não vai perder nada – além de ter ganho o salário para fazê-lo, incluído no orçamento. Depois ainda ganha o direito de posar de gênio incompreendido por ter tido um filme rejeitado por distribuidores (que têm contas a pagar), exibidores e espectadores.

Já os músicos têm uma relação mais direta com o público; quase não há intervalo entre apresentação e aplauso ou vaia. Discos vendem e músicos e gravadora ganham dinheiro. Não vendem, e a gravadora leva prejuízo. É simples assim. O consumidor está endossando ou não o trabalho do artista. Por isso, não só pela genialidade dos artistas, mas também por eles se preocuparem com a platéia, é que temos um mercado de música vigoroso, efetivamente popular, e um cinema que só continua existindo por ser subsidiado.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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