Democracia e religião

Publicado originalmente no site do Instituto Millenium.

A União das Comunidades e Organizações Islâmicas da Europa pediu ao governo italiano que sua religião também fosse ensinada nas escolas públicas. O Cardeal Renato Martino, presidente da Comissão Pontifícia Justiça e Paz, endossou a proposta, dizendo que o respeito à religião não pode ser seletivo, mas lembrou do princípio de reciprocidade: se a Itália chega a ensinar o Islam em suas escolas estatais, também os países islâmicos devem admitir que o Cristianismo seja ensinado em suas escolas

Num Estado leigo e democrático, o certo seria que nenhuma religião fosse ensinada nas escolas. Por razões filosóficas, creio que não deveria haver escolas estatais; mas, sabendo que elas não vão acabar tão cedo, desejo que ao menos haja coerência entre a laicidade do governo e as escolas por ele oferecidas: nada de símbolos religiosos, muito menos aulas de religião, e preferencialmente nem mesmo aulas sobre religião. Isto, porém, é um debate possível, repito, num Estado leigo e democrático. E um Estado que seja confessional e islâmico? Como estabelecer reciprocidade entre um governo aconfessional e outro confessional?

Entre os valores em que o Ocidente – não necessariamente a Carta da União Européia – se baseia, que podem ser utilizados como base de qualquer discussão, está a liberdade, e nela incluída a liberdade de culto e de consciência. Ao passo que eu mesmo posso não gostar de ver um Cardeal defendendo o ensino islâmico nas escolas, não posso deixar de admirar o fato de ele não se curvar ao multiculturalismo, apoiando a liberdade religiosa porque é um valor universal, porque é verdade que o ser humano tem esse direito, e não porque os europeus têm tanto direito a ser pitorescos quanto exóticos povos orientais.

Portanto, realmente é hora de seguir o exemplo do Cardeal Martino, e dizer aos países islâmicos que dispensem aos cristãos, ateus, budistas, macumbeiros etc os mesmos direitos de que os muçulmanos dispõem no Ocidente. Não são os governos ocidentais que têm problema com o Islam: são muitos governos islâmicos que têm problemas com a liberdade, e é hora de encararem isto.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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