Será que os “muçulmanos moderados” amam a verdade?

Esta foi minha primeira colaboração com O Insurgente.

Feliz aniversário por seu primeiro ano de vida!

Ah, sim: o politicamente correto mata.

I

Toda vez que leio a expressão “Islam moderado” sinto uma certa náusea. Porque eu não entendo tanto assim de Islam, mas sei que é uma religião que, assim como a minha, tem seus preceitos. Posso ser um mau católico, mas sou um mau católico no plano da minha conduta pessoal, não da minha profissão de fé; e não me considero um “católico moderado”. Prefiro ser visto como um mau católico a ser considerado um “católico moderado”.

Pois o que significaria ser um “católico moderado”? Parece que estamos falando de uma xícara de café que, sendo muito forte – aliás como nós latinos gostamos – , precisa ser moderada por um pouco de água, para agradar ao paladar de quem a toma. Tudo que é moderado é moderado por uma instância exterior a si; o café é moderado pela água, a religião é moderada pela sensibilidade moderna. Se a Igreja prescreve uma conduta que parece difícil, basta que a ignoremos para sermos coroados socialmente com a aparência da virtude da temperança. “Ele é sábio: é católico, o que pode ser uma excentricidade adorável, diante da herança cultural da Igreja; mas é moderado, não crê que se deve seguir tudo o que a velha Mestra prescreve.”

Talvez eu pudesse respeitar alguém que se diz moderado por seu amor à Verdade. O sujeito é católico, mas no fundo de seu coração, com toda a sua sinceridade, julga que certo ponto da doutrina é falso. Este é um atormentado, um radical, um homem com o coração dividido entre duas belas candidatas, a Igreja e a Verdade, não entre a Igreja e a conveniência pessoal, ou a vaidade de ser católico e alguma concupiscência.

II

Muitos dos melhores homens do passado e do presente enfrentam circunstâncias adversas para pregar. O fundamento de pregar, a motivação de Raimundo Lúlio ao ir para o mundo árabe, e até aquilo que nos move a discutir nas circunstâncias mais inconvenientes, da maneira mais tosca, às vezes passando por cima do bom senso e da etiqueta, é a firme crença de que o interlocutor ama a verdade tanto quanto a amamos. O desânimo vem exatamente quando nos parece que ele simplesmente não a ama.

Por isso não creio que Lúlio tenha ido ao mundo árabe pregar para “muçulmanos moderados”, e acho que teria ficado muito escandalizado se tivesse encontrado algum. Será que ele gostaria de trazer para a própria religião alguém que desprezasse a sua de origem? Você entregaria a mãe aos cuidados de alguém que desprezou a sua própria? Será que alguém não creia em nenhuma religião, mas tenha profundo amor por valores realmente belos como a democracia e a liberdade, gostaria de convidar para partilhar destes valores as pessoas que não mostram apreço nem por seus antigos valores?

Autor: Pedro Sette-Câmara

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