De como deixei de ser astrólogo

Em perguntas e respostas. A cada dia que passa eu gosto mais do formato de perguntas e respostas.

1. Por que você deixou de ser astrólogo?

Por duas razões – uma religiosa e outra pessoal.

A questão religiosa pode ser formulada da seguinte maneira: se há alguma condenação clara e inequívoca da astrologia pelo Magistério da Igreja, não é possível ser católico e astrólogo. O problema que eu sempre encontrei esteve na parte do “clara e inequívoca” – a astrologia clássica (grega do período helenístico e romana) é muito diferente da medieval e renascentista, as duas são muito diferentes da moderna, e não temos a menor idéia de como era a astrologia de egípcios, babilônios etc. As condenações dos primórdios da Igreja são voltadas para a astrologia clássica, evidentemente em razão do fatalismo e de sua relação intrínseca com cultos pagãos. Sempre achei que nenhum povo jamais poderia ter sido imbecil o suficiente para cultuar o Sol em si, mas a verdade é que isto existiu mesmo. Uma vez vi uma condenação de um concílio local para “a astrologia e as matemáticas”: sabendo que a Igreja certamente não se oporia à simples idéia de fazer contas, vemos aí um exemplo extremo de texto antigo que não conseguimos entender porque nos falta o contexto – o qual, aliás, só pode ser reconstruído conjeturalmente. A condenação recente do Papa João Paulo II, na encíclica Fé e Razão, não apenas não tem valor magisterial (ainda que tenha tremendo valor moral) como se refere claramente à astrologia moderna.

Meu quinhão astrológico estava livre, pensava. Até que um dia me deparei com uma entrevista de meu professor de astrologia, o inglês John Frawley:

Como você equaciona a astrologia com o catolicismo?

John Frawley: 98% de mim não vê contradição nenhuma. Eu não nasci católico, eu me tornei católico por causa da astrologia. O catecismo diz que todos os astrólogos são servos do demônio (P. 2116) – e os 2% restantes acham que isso pode ser bastante exato. Acho que virá um dia em que deixarei de ser astrólogo por causa disso. Mas agora eu acho que minha fé melhora minha prática astrológica, e minha prática astrológica melhora minha fé.

Bem, o Catecismo não diz que todos os astrólogos são servos do demônio, mas o seguinte:

2116 Todas as formas de adivinhação hão de ser rejeitadas: recurso a Satanás ou aos demônios, evocação dos mortos ou outras práticas que erroneamente se supõem “descobrir” o futuro. A consulta aos horóscopos, a astrologia, a quiromancia, a interpretação de presságios e da sorte, os fenômenos de visão, o recurso a médiuns escondem uma vontade de poder sobre o tempo , sobre a história e finalmente sobre os homens, ao mesmo tempo que um desejo de ganhar para si os poderes ocultos. Estas práticas contradizem a honra e o respeito que, unidos ao amoroso, temor, devemos exclusivamente a Deus.

A tradução usada é a oficial, publicada no Brasil. O Catecismo, enfim, traz uma condenação inequívoca da astrologia enquanto prática divinatória: “Todas as formas de adivinhação hão de ser rejeitadas.” Confesso ainda ter um problema com a parte do parágrafo que diz ser falsa a idéia de que a astrologia funcione. Até onde eu sei, funciona sim. Sou obrigado a admitir, porém, que a astrologia é sim um convite ao desejo de poder sobre o tempo e a história.

Agora falo do problema pessoal. Iniciei minha carreira astrológica pensando em oferecer às pessoas consultas frias, diretas, objetivas. No entanto, o cliente astrológico freqüentemente deseja receber muita, muita atenção. Não tenho vocação para trabalhos terapêuticos, não gosto da associação entre astrologia e terapia e muitíssimo menos gosto da relação de dependência que muitos clientes tentam estabelecer com o astrólogo. Sempre quis me colocar como um mero adivinho, tão passível de errar quanto qualquer outro profissional, e não como um guru. Mas as pessoas desejam realmente um guru, e atribuem ao astrólogo poderes que ele não possui. Por exemplo, acho que os clientes jamais serão convencidos de que o astrólogo não passa seus dias descobrindo os segredos do universo só para poder mantê-los escondidos.

Existe ainda a questão de que eu não gosto de quase nada do que vem associado à astrologia nos dias de hoje. Eu não acredito em duendes, nunca acreditei em reencarnação (até porque nunca entendi que diferença faz ter tido outra vida ou não), não tenho paciência para conversas sobre extraterrestres, não sou leitor de Blavatsky, não gosto de Wicca, de paganismo, de ecologia, de consciência cósmica etc. Eu acredito nos artigos do Credo católico e gosto do Papa Bento XVI. Eu vou à missa todos os domingos no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro.

2. Mas, se você é católico, como não tinha lido ainda o catecismo?

Por puro orgulho, acredito. Confesso não apreciar o estilo dos documentos que a Igreja produziu a partir do Concílio Vaticano II. Isto fez com que eu nunca tivesse olhado atentamente o Catecismo de João Paulo II. Mas o então Cardeal Ratzinger, em O Sal da Terra, admitiu que ele tinha problemas…

3. E as proibições do Antigo Testamento, como a do Deuterônomio (XVIII, 10)? E as condenações de Santo Agostinho? Não valem para um católico?

Nem tudo o que está no Antigo Testamento vale para um católico. Sempre que vinha um católico espumante de raiva tentar esfregar essa passagem na minha cara, respondia que eu largaria a astrologia assim que ele passasse a obedecer as prescrições do Levítico, como não encostar em mulheres menstruadas. Não vamos nem falar em outros pontos do judaísmo que não adotamos.

Santo Agostinho, de um lado, dizia que a astrologia não funcionava; nisto, devo dizer – e com toda a humildade necessária, porque sou cada vez mais leitor do grande santo – que ele está errado. O exemplo a respeito dos gêmeos que ele tira de um amigo que pensou em se tornar astrólogo (ver Confissões) pode ser refutado por Cardan, que fala sobre relacionar as natividades de pais e filhos. Este é um assunto técnico astrológico e tem a ver com noções de tempo cíclico. Pouparei o leitor por ora. Sei que Santo Agostinho tem uma filosofia própria a respeito do tempo, mas não sei se dela resultaria uma condenação ainda mais forte da astrologia ou seu fortalecimento (porque astrologia é a arte de discernir a qualidade do tempo em relação a alguma atividade). Quem souber, por favor avise.

4. Você vai continuar a estudar astrologia?

Acredito que sim, mas apenas privadamente, e para resolver certas questões filosóficas que ficaram. Existe, por exemplo, a questão de a astrologia funcionar. Outra questão muito interessante é a diferença que há entre a astrologia do período clássico e a astrologia medieval, “cristianizada”. Mas agora eu preciso encontrar um fundamento propriamente teológico para a astrologia. Recentemente percebi que é preciso fundamentar as coisas neste nível porque, enfim, este é o nível fundamental. “A filosofia é serva da teologia”, já diziam os medievais.

Agora, uma questão que permanece urgente é a da existência de uma “teologia da natureza”, ou ao menos da difusão de algo assim. O discurso “científico” e de “divulgação científica” sugerem uma nova antropologia, uma nova visão de mundo, que parasita o Cristianismo: basta trocar “pecado” por “gordura” e reter o sinal de negatividade ou trocar “oração” por “malhação” retendo a positividade, por exemplo. O Sol, a Lua e as estrelas hoje são apenas “massas” de gás ou alguma coisa, e qualquer beleza que se possa perceber nelas é colocada como uma mera questão subjetiva, de gosto. O Sol no céu nos parece tão arbitrário quanto a lâmpada no teto. É muito importante para mim reencontrar o sentido real destes objetos; a natureza faz sentido para o homem, não só para os instrumentos que a medem; este sentido, por sua vez, tem um fundamento teológico. Ao falar em destino e relacionar as biografias humanas ao movimento dos planetas (na astrologia o Sol e a Lua são planetas), os homens do passado tentaram, de algum modo, encontrar este fundamento. É preciso ver onde, no Cristianismo, poderia se fundamentar uma astrologia verdadeira.

5. Se a astrologia funciona, e o conhecimento do futuro é possível, por que a Igreja a proibiria? Não seria apenas uma maneira de dominar as pessoas, vedando-lhes o conhecimento?

Em primeiro lugar, é preciso salientar que para ser um bom astrólogo é preciso ter talento, prática e, nas atuais condições, dinheiro e excelente domínio do inglês, porque os bons livros estão nos EUA e os bons professores na Europa. Portanto, não estamos falando das “pessoas”, e sim de uma pequena elite.

Em segundo lugar, o “conhecimento do futuro” pela astrologia é uma simples conjetura. É como a arte de fazer diagnósticos; você aprende a acertar. Não se trata de princípios literais dos quais são tiradas conclusões literais e necessárias; são símbolos dos quais você tira um julgamento literal, que pode muito bem estar errado – “ele voltará” é diferente de “ele não voltará”.

Para a astrologia ser usada pelo próprio astrólogo com proveito, este precisa desenvolver muita frieza, porque é muito mais freqüente obter respostas negativas (“Vou conseguir o dinheiro? Não”) e não encontrar o momento ideal para nossos empreendimentos do que o contrário.

Claro que, ainda assim, é possível que algumas pessoas reúnam as condições interiores e exteriores para obter bons resultados com a astrologia. Por que abdicar da possibilidade de fazer muitas conjeturas corretas a respeito do futuro usando meios astrológicos? Só porque a Igreja mandou? Sim.

Eu pensava nisto – aliás, pensava muito nisto – até a hora em que parei na Livraria da Travessa, em Ipanema, para ver o livro que meu amigo Carlos Nougué acabou de traduzir, Da natureza do bem, de Santo Agostinho. Abri exatamente na página em que ele explicava que a proibição de comer da árvore no Éden simbolizava não que o conhecimento em si estivesse vedado, mas que é bom para o homem seguir a vontade de Deus. Talvez você pense que isso é loucura, mas a loucura de Deus é mais sábia do que a sabedoria dos homens.

Se você não acredita em Deus e nem na Igreja, perdemos nosso terreno comum. Estou ciente de que neste ponto começa um embate teológico e até civilizacional: “Loucura de Deus x sabedoria dos homens”.

Sabendo que ainda faltariam muitas questões interessantes a tratar, mas ciente de que elas são irrelevantes para a minha desistência da prática astrológica, passo a questões práticas.

6. Você vai vender seus livros de astrologia?

Não. E também não empresto para xerox. Quem quiser comprar qualquer livro pode ir à AstroAmerica.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com