O juiz decide a matéria escolar

Nos últimos dias de 2005 a filistéia deu pulinhos porque um juiz americano decidiu que a teoria do design inteligente não poderia ser mencionada nas salas de aula do seu estado. Ninguém se perguntou se um juiz de direito deveria ter o poder de decidir o que é ensinado nas salas de aula, nem se ele tem capacidade para tanto. Agora fico imaginando o judiciário se reunindo com um monte de livros de ciência, dizendo assim: “Esse Newton está todo errado. Vamos tirá-lo do currículo.” Sem contar que os brasileiros, que adoram imitar tudo de pior que os americanos fazem com alguns anos de atraso, logo também vão querer submeter nosso currículo escolar à apreciação da nossa sapientíssima nobreza de toga, por sua vez célere em ceder às pressões da moda e, como já disse aquela desembargadora do artigo do Globo, em “reescrever a história”. Não vou imaginar o que aconteceria em áreas que desconheço absolutamente (pois eu fui um péssimo aluno em várias matérias), mas antevejo a comunidade muçulmana querendo proibir o uso dos Lusíadas, para que ninguém mais leia coisas como “a gente vil de Mafamede”. Os movimentos negros hão de querer proibir o estudo de Machado de Assis, pois todos sabem que ele era “esbranquiçado”. Aliás, também as mulheres vão querer proibi-lo; afinal, naqueles últimos romances, justo os que são lidos nas escolas, as personagens não são exatamente exemplares. Misógino, misógino. No futuro, só letras de Martinho da Vila e Djavan, o serviçal do samurai, se é que você me entende. E a filistéia, em seu cósmico orgasmo estatólatra, gemerá masoquisticamente a cada patada que for levando do Leviatã.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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