A necessidade e a glória

Mensagem de Natal

O mundo não-cristão é o mundo da necessidade. Édipo pagou os pecados dos avós. Antígona, os dos bisavós. Nem a deusa Tétis pôde realizar um milagre para salvar seu filho em Tróia: nem os deuses escapavam às Parcas. Preso ao seu status de nascimento, o hindu de casta inferior não pode sequer olhar os de casta superior. Até o judeu entregava olho por olho, dente por dente.

Se no mundo não-cristão a astrologia pode por vezes assumir uma função hierática, era só porque o fatalismo cósmico era o horizonte máximo da existência. Discernir a lei individual de necessidade de cada homem, a fim de aconselhá-lo a receber bem os infortúnios, eis o máximo de “espiritualidade”: os deuses, já sabia Homero, estavam dentro do homem. A realização máxima espiritual era escapar de algum modo do famoso “ciclo de vida e morte”, o local do escape sendo o nada ou um aquém melhorado, um para-universo diferente do além dos espíritas apenas em valor estético. O que importava era que o mal deste mundo ficava neste mundo: aqui se faz, aqui se paga. O equilíbrio cósmico será atingido mais dia menos dia, ao fim da Idade do Ferro, do kali-yuga etc.

A antiga profecia judaica prometia, no entanto, romper com tudo isso. Como disse Yeats, a Virgem arrancou o coração de Dionísio e o levou para longe, transformando toda a religião antiga em mera literatura. Viver segundo o paganismo tornou-se uma ilusão, um jogo sem fim de RPG, depois que Jesus nasceu e nos trouxe a nova lei. Em vez de deixar o mal do mundo neste mundo, Ele levou este mal consigo para longe, e estabeleceu a misericórdia. Se a sensatez ou frônesis era uma das maiores virtudes do homem pagão, a misericórdia tornou-se seu correspondente cristão, como uma espécie de sensatez além da natureza, que visa não o bem neste mundo, mas o bem no outro; e, ao visar o bem no outro, promove a paz neste mundo no sentido da sétima bem-aventurança, indo além da justiça antiga, que era a retribuição.

Hoje a profecia judaica se cumpre. Seremos libertados deste mundo de necessidade e retribuição, em que adoramos figuras literárias – e uma suposta elite, a fim de manter a paz, nunca explica que são metáforas para o nada. O Deus de Israel, que deu o maná quando poderia ter dado nada, que deu água a Moisés mesmo quando este O desobedeceu, veio nos trazer a salvação e a remissão dos pecados. Ele estabeleceu um novo tempo, não guiado pelo movimento celeste ou pelas biografias dos generais, em que nós podemos escapar da necessidade e, junto com o ladrão a seu lado na cruz, conhecer a glória no Paraíso literal, e não literário.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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